As regiões · Austrália
Barossa: o Shiraz das videiras que passaram dos cem anos
O Barossa é uma das regiões de vinho mais conhecidas da Austrália, a norte de Adelaide, no estado da Austrália Meridional. É terra de tinto encorpado, quase sempre de Shiraz, que é a Syrah com sotaque australiano, e de algumas das videiras mais velhas do mundo ainda a dar uva, com vinhas que remontam a 1843. Encosta acima, no Eden Valley, a conversa muda para o Riesling.
Onde fica e como é o lugar
O Barossa fica a norte de Adelaide, a capital da Austrália Meridional. Como zona de vinho, junta duas regiões: o Barossa Valley, no vale, e o Eden Valley, nas serras ao lado. Pelo inquérito de colheita do estado, eram 14.222 hectares de vinha em 2024, sendo 11.930 no Barossa Valley e 2.292 no Eden Valley. O povo da terra, antes dos europeus, eram os Peramangk, os Ngadjuri e os Kaurna.
O clima é mediterrânico, a 34 graus de latitude sul: inverno fresco e chuvoso, verão quente e seco. No fundo do vale faz calor, a humidade é baixa e quase não chove na época em que a uva amadurece, o que deixa a fruta bem madura e o vinho cheio. A seca é um dos grandes desafios, e muita vinha é regada quando precisa. A vindima começa em meados de fevereiro e pode ir até ao fim de abril.
O Eden Valley é outra história. As vinhas ficam entre 380 e 500 metros de altitude, onde o dia é 2 a 3 graus mais fresco do que no vale e a noite pode ser até 7 graus mais fria. Chove mais, a geada de primavera é um risco, a uva amadurece devagar e o vinho sai com mais acidez e perfume. Dentro do Eden Valley fica ainda o High Eden, a única sub-região oficial do Barossa.
As castas da região
São mais de 40 castas plantadas, mas a tinta domina: 84% das vinhas, segundo a associação do Barossa. A rainha é a Shiraz, cultivada ali há mais de 175 anos. Junto dela vêm a Grenache, que chegou nos anos 1840 e durante muito tempo foi a base dos vinhos fortificados, a Cabernet Sauvignon e a Mataro, que é a mesma Mourvèdre de França e Monastrell de Espanha. E há castas esquecidas a ser redescobertas, como Carignan, Touriga Nacional e Cinsault, ao lado de novatas como Sangiovese e Tempranillo.
Nos brancos, o destaque é o Riesling do Eden Valley, plantado ali pela primeira vez em 1847. Nos anos 1960, o Riesling chegou a ser a casta branca mais plantada da Austrália, e o Eden Valley ia à frente dessa onda. Há ainda a Semillon, que acompanha o Barossa há mais de 175 anos, e a Chardonnay, que chegou nos anos 1960.
Que vinho sai de lá
O Shiraz clássico do Barossa é tinto de cor quase preta, com ameixa madura, notas de chocolate amargo e alcaçuz, corpo cheio e tanino firme, muitas vezes com passagem por barrica. Os tradicionais, de vinha sem rega e de produção baixa, são feitos para guardar durante décadas. Uma geração mais nova vindima mais cedo e faz Shiraz de corpo médio, mais floral e mais fresco. Há ainda a mistura de Shiraz com Cabernet, comum desde o fim do século XIX, e o trio GSM: Grenache, Shiraz e Mataro.
No Eden Valley, o Riesling sai seco, de acidez alta, com aroma a limão e maçã verde e sem madeira nenhuma. A uva é colhida à mão, prensada com cuidado e fermentada a frio em inox, para guardar a frescura. Com os anos em garrafa, ganha notas de mel e torrada. A região foi pioneira na tampa de rosca e também faz Rieslings de colheita tardia, mais doces.
O que diz o rótulo
Na Austrália, as indicações geográficas (IG, o nome protegido de um lugar) vão do grande para o pequeno: zona, região e sub-região. O Barossa é uma zona, oficializada no fim dos anos 1990, com duas regiões dentro, Barossa Valley e Eden Valley, e uma sub-região, High Eden. Para um lugar se tornar região, a regra pede pelo menos 500 toneladas de uva por ano e cinco vinhas de donos diferentes, com 5 hectares ou mais cada.
A regra dos 85% vale para a casta, para a colheita e para o lugar. Se o rótulo diz Barossa Valley, pelo menos 85% da uva veio de lá; se diz Shiraz, pelo menos 85% é Shiraz; se diz um ano, pelo menos 85% é dessa colheita. E a lei australiana proíbe expressões como estilo Barossa em vinho que não é de lá.
Outra coisa que aparece muito no rótulo é a idade da vinha. Em 2009, o setor adotou a Barossa Old Vine Charter (carta das vinhas velhas), criada pelos próprios produtores para tornar o rótulo mais claro e honesto. Tem quatro degraus: Old Vine (35 anos ou mais), Survivor Vine (70 ou mais), Centenarian Vine (100 ou mais) e Ancestor Vine (125 ou mais).
Com que combina
Shiraz do Barossa encorpado e churrasco são parceiros naturais: picanha, costela, cupim, linguiça. Vai bem também com rabo de boi, carne estufada e um feijão tropeiro bem feito. Um Shiraz mais leve, vindimado cedo, enfrenta pizza de chouriço e hambúrguer. O GSM, com a Grenache à frente, combina com borrego e porco assado. O Riesling seco do Eden Valley é ótimo com peixe, sushi, frango e comida picante, como um prato tailandês. Tudo sugestão: se gostou de outro par, vá por outro par.
Videiras que passaram dos cem anos
O nome nasceu de um engano. O coronel William Light, agrimensor-geral da colónia, batizou o vale em homenagem à serra de Barrosa, na Andaluzia, onde lutou em 1811, e um erro de escrita deixou o nome como Barossa. Nos anos 1840 chegaram luteranos de províncias da Prússia, a fugir da pressão do rei para mudarem de igreja. Fundaram Bethany e, até aos anos 1850, umas 12 aldeias alemãs no vale. Em 1929, com o vinho fortificado a fazer sucesso lá fora, o Barossa já respondia por 25% do vinho australiano.
Parte das videiras dessa época continua de pé. Escaparam à filoxera, a praga que destruiu 90% das vinhas da Europa no século XIX, graças à quarentena rígida da Austrália Meridional. Nos anos 1980, um programa do governo pagou a produtores para arrancar vinha improdutiva, e muita Shiraz e Grenache centenária desapareceu. O que sobrou hoje é tratado como um tesouro: no estado inteiro, há uns 150 hectares de vinha com 125 anos ou mais.
As castas dos rótulos daqui
Nos 164 rótulos da pesquisa do Barossa Valley, as castas que mais aparecem. O número diz em quantos rótulos.
Os mais bem avaliados do Barossa Valley
Nota média de quem bebeu (X-Wines), de 1 a 5. Toque para ver a ficha.
- Torbreck RunRignota ★ 4,6
- Torbreck Les Amisnota ★ 4,6
- Langmeil The Freedom 1843 Shiraznota ★ 4,6
- Rockford Basket Press Shiraznota ★ 4,6
- Two Hands Aresnota ★ 4,6
- The Standish The Relic Shiraz-Viogniernota ★ 4,6
- Kellermeister Wines Wild Witch Shiraznota ★ 4,5
- Penfolds RWT Shiraznota ★ 4,5
Ver os rótulos do Barossa Valley na pesquisa →
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