As castas da casa · tinta
Grenache: a casta espanhola que reina no sul de França
Grenache é uma casta tinta de fruta vermelha madura, um toque de pimenta e álcool generoso. Em Espanha, onde nasceu, chama-se Garnacha; na Sardenha, Cannonau. É a casta mais plantada nas denominações do Vale do Rhône, entra no trio dos rosés da Provença e é o G do famoso GSM australiano. Se já bebeu um tinto do sul de França, é bem provável que ela estivesse na garrafa.
De onde vem
A Grenache é espanhola. No VIVC, o catálogo internacional de castas, o nome principal dela é Garnacha Tinta, com Espanha como país de origem. A OIV, a organização mundial da vinha e do vinho, chama-lhe casta tinta antiga de Espanha que provavelmente chegou a França na Idade Média. Em 2015, Espanha e França juntas tinham 87% de toda a Grenache plantada no mundo.
Em Aragão, no nordeste espanhol, o governo regional trata a Garnacha como casta nativa dali. É a maioria na denominação Campo de Borja, que se apresenta como o Império da Garnacha, e é a base do Calatayud Superior, que exige pelo menos 85% de Garnacha de vinhas com mais de 50 anos. A regra de Cariñena, ali ao lado, ainda guarda o relato de um viajante de 1809 a elogiar um vinho conhecido pelo nome de garnacha.
Como é no copo
Fruta vermelha em primeiro plano. O Conselho Regulador de Rioja descreve muita intensidade de fruta vermelha e ameixa seca, um toque de violeta e pimenta; no vinho jovem, pimenta moída na hora com framboesa e amora. A uva acumula bastante açúcar, e o açúcar transforma-se em álcool: por isso o tinto de Grenache costuma ser quente e redondo. Em Campo de Borja, o governo de Aragão fala até de uma sensação de dulçor no fim do gole.
O clima muda a maneira de ser dela. Segundo Rioja, nas zonas quentes sai o tinto típico dela; nas mais frescas, um vinho equilibrado, ótimo para rosé. Na Provença, a regra da denominação Côtes de Provence diz que a Grenache traz álcool e redondeza ao lote. Por isso vive em blend, a mistura de várias castas no mesmo vinho: a OIV lembra que costuma ser juntada a outras para chegar ao equilíbrio.
Com que combina
A fruta vermelha e o calorzinho do álcool pedem comida com tempero. Vai bem com linguiça na brasa, entrecosto, frango assado com colorau, borrego, pizza de chouriço e aquela carne estufada com batata. O rosé de Grenache acompanha gambas ao alho, salada de verão, rissóis e comida árabe. E os vinhos doces naturais do Roussillon, feitos dela, fazem par com bolo de chocolate, brigadeiro e queijo azul. Tudo sugestão: se gostou de outro par, vá por outro par.
Onde brilha hoje
Em França, era a terceira casta mais plantada em 2015, com 81 mil hectares nas contas da OIV. A casa dela é o sul do Rhône: nas denominações do Vale do Rhône havia 35.671 hectares de Grenache em 2023, mais do que qualquer outra casta, segundo a Inter Rhône. Em Châteauneuf-du-Pape, a regra autoriza 18 castas, mas diz com todas as letras que a Grenache é a dominante da vinha.
Em Espanha, eram 62 mil hectares em 2015, segundo a OIV. No Priorat, na Catalunha, ela e a Cariñena são as duas tintas recomendadas pela denominação. Ali a vinha sobe encostas íngremes e sofre com o solo e o clima: em média, dá menos de um quilo de uva por pé. Na Sardenha, com o nome de Cannonau, ocupa cerca de 30% da vinha da ilha, uns 7.500 hectares, e a denominação Cannonau di Sardegna exige no mínimo 85% dela.
Na Austrália, a Grenache faz dupla com a Shiraz e a Mataro (a Mourvèdre) no blend conhecido como GSM, que a Wine Australia aponta como o vinho de Grenache mais exportado do país. No Barossa, também sai sozinha, com framboesa madura e pimenta. Na África do Sul, a WOSA, que representa os vinhos do país, destaca uma casta resistente à seca, ao vento e ao sol.
Os outros nomes dela
O VIVC regista 154 sinónimos. Os que aparecem no rótulo: Garnacha ou Garnacha Tinta em Espanha, Garnatxa na Catalunha, Grenache ou Grenache Noir em França, Cannonau na Sardenha e Lladoner, nome que a OIV regista em Espanha. Na lista também está Alicante. Só não a confunda com a Alicante Bouschet, casta de polpa tinta que a OIV conta como outra variedade, com área própria em Espanha.
Um médico, um alambique e o vinho que para a meio
No Roussillon, colado aos Pirenéus, a Grenache torna-se vinho doce natural. A regra da denominação Rivesaltes atribui a técnica a Arnau de Vilanova, médico que viveu entre 1238 e 1311 e levou a destilação para o vinho: a meio da fermentação entra álcool neutro de uva, a levedura deixa de trabalhar e o açúcar da fruta fica no copo. É a mutagem, o mesmo princípio do Vinho do Porto.
Hoje a regra de Rivesaltes manda acrescentar álcool de uva de pelo menos 96%, na medida de 5% a 10% do volume do mosto. A versão grenat é feita só de Grenache Noir, em geral com a mutagem feita com as películas ainda na cuba, o que dá cor púrpura e aroma a fruta vermelha, fruta preta e especiaria. Em Maury, ali ao lado, o INAO também regista um grenat, com a Grenache como casta de base.
Os mais bem avaliados com Grenache
Nota média de quem bebeu (X-Wines), de 1 a 5. Toque para ver a ficha.
- Château Rayas Châteauneuf-du-Papenota ★ 4,8
- Álvaro Palacios L'Ermita Velles Vinyes Prioratnota ★ 4,8
- Henri Bonneau Chateauneuf-du-Pape Réserve des Célestinsnota ★ 4,7
- Alto Moncayo Aquilon Garnachanota ★ 4,7
- Pegau Cuvée Da Capo Châteauneuf-du-Papenota ★ 4,7
- Waterford Estate The Jemnota ★ 4,7
- Château Rayas Châteauneuf-du-Pape Pignan Rougenota ★ 4,6
- Gérard Bertrand Clos d'Oranota ★ 4,6
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