As castas da casa · tinta
Mourvèdre: a casta de três nomes que vive do sol
Mourvèdre é uma casta tinta de película grossa, cor profunda, tanino firme e fruta preta madura. Em Espanha, onde nasceu, chama-se Monastrell; na Austrália, Mataro. Amadurece tarde e precisa de muito sol, por isso vive perto do Mediterrâneo. É a casta principal de Jumilla, a estrela dos tintos de Bandol, na Provença, e o M do trio GSM.
De onde vem
A Mourvèdre é espanhola. No VIVC, o catálogo internacional de castas, o nome principal dela é Monastrell, com Espanha como país de origem. A denominação Alicante conta que a casta aparece em registos desde o século XV e que, ao que se crê, veio da região de Sagunto, perto de Valência. Segundo a mesma denominação, o nome francês, Mourvèdre, viria de Morvedre, cidade valenciana; e Mataro, de Mataró, localidade catalã perto de Barcelona.
O sudeste espanhol é o coração dela. Já em 1975, o regulamento da denominação Yecla, em Múrcia, apontava a Monastrell como a casta principal. Na vizinha Jumilla, a regra atual diz o mesmo e conta que mais de 70% da vinha é dela: uma planta rústica e sofredora, que aguenta seca, calor forte no verão e geada na primavera. É a casta que melhor se adaptou ao clima árido e soalheiro da região, diz o conselho da denominação.
Como é no copo
Cachos pequenos, bagos pequenos e escuros, película grossa e cheia de cor: é assim que a regra de Jumilla descreve a casta. No copo, isso dá um tinto de cor profunda, encorpado, de álcool generoso, com fruta madura e tanino presente. Tanino é aquele aperto nas gengivas; aqui é firme, mas, segundo a mesma regra, bem integrado. A denominação Alicante fala de amora, e de um sabor que muda bastante conforme o lugar.
É casta de guarda. A regra da Côtes de Provence diz que a Mourvèdre dá ao lote boa aptidão para o envelhecimento, e os tintos de Bandol passam no mínimo 18 meses em madeira antes de sair. Mas não é só peso: em Jumilla, a mesma casta dá rosés amplos, muito frutados e de acidez fresca, e também vinho licoroso, com tanino alto e cor quase opaca.
Com que combina
Tanino firme e fruta preta pedem comida com sustância. Pense em borrego assado, cupim, costela no bafo, carne estufada, ossobuco, javali, linguiça e queijo curado. Um tinto de Monastrell mais jovem e frutado aguenta bem a feijoada e o churrasco de domingo. O rosé de Bandol, mais sério do que o rosé comum, vai com peixe grelhado, moqueca e polvo. Tudo sugestão: se gostou de outro par, vá por outro par.
Onde brilha hoje
Em Espanha eram 43 mil hectares em 2015, a sexta casta mais plantada do país, segundo a OIV. A denominação Alicante aponta onde ela mais aparece: nas denominações de Múrcia, como Jumilla, Yecla e Bullas, e em Alicante. Em Jumilla, o vinho que leva Monastrell no rótulo tem de ter pelo menos 85% dela, e a menção Viña Vieja exige 85% de uva de vinhas com pelo menos 30 anos. E o solo ajudou: a regra conta que os solos de areia e argila da zona travaram o avanço da filoxera, a praga que castigou boa parte da Europa em meados do século XIX.
Em França, a capital é Bandol, na Provença: a regra exige de 50% a 95% de Mourvèdre nos tintos e de 20% a 95% nos rosés. No Vale do Rhône é secundária, com 2.871 hectares nas denominações em 2023, segundo a Inter Rhône, e está entre as 18 castas de Châteauneuf-du-Pape. Nas Corbières, no Languedoc, a regra explica que a Mourvèdre, de maturação mais tardia, fica nos solos mais quentes, perto do mar e em sítios abrigados.
Na Austrália, com o nome de Mataro, entra no GSM: Grenache, Shiraz e Mataro, o blend clássico do Barossa, segundo a Wine Australia. A denominação Alicante resume o mapa: a casta cresce em lugares de clima quente, como o sul de França, a Austrália, a Califórnia e o Levante espanhol. É a mesma lição da regra de Bandol: casta que amadurece tarde precisa de sol de sobra.
Os outros nomes dela
No VIVC são 131 sinónimos. Os de rótulo são três: Monastrell em Espanha, Mourvèdre em França e Mataro na Austrália. Na lista também aparecem Morastell, Monastrel, Garrut e Murviedro, parecido com o Morvedre que teria dado o nome francês. Uma curiosidade da própria ficha de Bandol: entre os nomes de lugar que ela cita como marca da história da vinha ali está um chamado la Mourvèdrière.
Sol em garrafa, desde 1787
Bandol é um anfiteatro de colinas virado para o mar, protegido do Mistral, o vento frio do norte. A regra da denominação conta umas 3.000 horas de sol por ano, chuva de 650 milímetros e encostas em socalcos de pedra seca, as restanques. É ali que a Mourvèdre, casta preta de maturação tardia, encontra o seu cantinho perfeito, diz o texto oficial.
A fama é antiga. Em 1787, Achard, num livro de geografia da Provença, já descrevia o clima abrigado e o sol forte de Bandol, e contava que os poetas provençais chamavam àqueles vinhos sol em garrafa. Em 1827, Tolozan, num tratado sobre os vinhos da Baixa Provença, escreveu que a casta que domina por toda a parte e faz a essência dos vinhos de Bandol é a Mourvèdre, uva preta muito escura.
Os mais bem avaliados com Mourvèdre
Nota média de quem bebeu (X-Wines), de 1 a 5. Toque para ver a ficha.
- Waterford Estate The Jemnota ★ 4,7
- La Grange des Pères Vin de Pays de l'Héraultnota ★ 4,6
- Gérard Bertrand Clos d'Oranota ★ 4,6
- Penfolds Grandfather Rare Tawnynota ★ 4,5
- Bodegas El Nido Clionota ★ 4,5
- Juan Gil Brutonota ★ 4,5
- Sadie Family Columellanota ★ 4,5
- Château Maucoil Privilège Châteauneuf-du-Papenota ★ 4,5
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