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Bordéus: dois rios, duas margens e o vinho de lote
Bordéus é a região do sudoeste de França que se tornou sinónimo de vinho de lote, aquele feito com mais de uma casta, quase sempre Merlot e Cabernet. A Gironde, o departamento onde fica, tem mais vinha do que qualquer outro de França. E é de lá também o Sauternes, um branco doce que nasce com a ajuda de um fungo.
Onde fica e como é o lugar
Bordéus fica no sudoeste de França, à volta da cidade com o mesmo nome. Dois rios atravessam a região, o Garonne e o Dordogne, e juntam-se no Bec d'Ambès para formar o estuário da Gironde, que corre até ao Atlântico. Toda esta água por perto segura a temperatura. O clima é oceânico: chove de 700 a 800 milímetros por ano, bem distribuídos, e o fim do verão muda muito de um ano para o outro. Por isso a colheita pesa tanto no copo de Bordéus.
Os rios dividem o mapa, e daí vem a conversa da margem esquerda e da margem direita. Na esquerda ficam o Médoc, uma língua de terra entre o oceano e o estuário, e Graves, colada à cidade, com solo de cascalho (as graves que dão nome ao lugar). É o reino da Cabernet Sauvignon. Na direita, à beira do Dordogne, ficam Saint-Émilion, Pomerol e Fronsac, com calcário e argila, e ali quem manda é a Merlot. A paisagem de Saint-Émilion foi a primeira de vinha a entrar na lista do Património Mundial da UNESCO, em 1999.
Com 100.737 hectares de vinha em produção em 2024, segundo a estatística oficial do Ministério da Agricultura francês, a Gironde é o departamento com mais vinha de França, e a área de denominação de origem de Bordéus é a maior do país. Esse tamanho tem vindo a diminuir: desde 2023, planos de arranque tiram vinha para equilibrar o que se produz com o que se vende.
As castas da região
Nos tintos, a Merlot ocupa 66% das vinhas de casta tinta, segundo o CIVB, o conselho que reúne os produtores e comerciantes de Bordéus. Depois vêm a Cabernet Sauvignon, com 21%, e a Cabernet Franc, com 8%. Petit Verdot, Malbec e Carménère dividem o resto. Nos brancos, Sauvignon Blanc (45%) e Sémillon (42%) ficam com quase tudo, e a Muscadelle entra como tempero. A Merlot é a principal hoje, mas só começou a espalhar-se por lá a partir de 1830.
Quase todo o Bordéus é lote, o blend: cada casta é vinificada à parte e a mistura acontece no fim. Cada uma tem a sua função. A Merlot traz macieza e fruta; a Cabernet Sauvignon dá estrutura, tanino (aquele aperto nas gengivas) e fôlego para a guarda; a Cabernet Franc põe um toque de fruta fresca e especiaria. A receita muda de ano para ano, conforme a colheita. E um pormenor para o leitor português: a regra da AOC Bordeaux aceita hoje, em até 5% da vinha, algumas castas escolhidas para enfrentar o clima mais quente, e a Touriga Nacional está na lista.
Que vinho sai de lá
Bordéus faz de tudo: tinto, branco seco, rosé, espumante (o Crémant de Bordeaux) e branco doce. O tinto é a maioria: 83% do volume das AOCs da Gironde em 2024 foi de tinto e rosé, segundo a estatística oficial. Há o tinto simples, de fruta, para beber logo, e o tinto de guarda, que pede anos de garrafa. E há um estilo a meio caminho, o clairet, que a lei define como um rosé escuro.
E há o Sauternes. Uns 40 quilómetros a sudeste da cidade, onde o rio Ciron encontra o Garonne, as noites trazem humidade e o dia vem com vento. Essa alternância faz aparecer na uva madura um fungo, o Botrytis cinerea, a chamada podridão nobre, que concentra o açúcar dentro do bago. A vindima é à mão, em várias passagens pela mesma vinha, a apanhar só a uva no ponto. Pela regra, o vinho sai com pelo menos 45 gramas de açúcar por litro, feito de Sémillon, Sauvignon Blanc, Sauvignon Gris e Muscadelle.
O que diz o rótulo
O nome grande no rótulo é a AOC, a denominação de origem controlada: um endereço com regras de casta, de produção e de lugar. Bordeaux é a AOC da região inteira, para tinto, branco e rosé. Bordeaux Supérieur é o mesmo território com regras mais apertadas: menos uva por hectare, uva mais madura e, no tinto, pelo menos nove meses de estágio. Depois vêm as AOCs de lugar: Médoc e Haut-Médoc, as comunas Margaux, Pauillac, Saint-Julien e Saint-Estèphe, Pessac-Léognan (criada em 1987), Graves, Saint-Émilion, Pomerol, Fronsac e Sauternes.
Saint-Émilion tem duas AOCs no mesmo chão: Saint-Émilion e Saint-Émilion Grand Cru. A segunda exige menos uva por hectare (46 hectolitros, contra 53) e pelo menos 10 meses de estágio. Grand Cru Classé já é outra coisa: é uma classificação. Bordéus tem cinco, segundo o CIVB: a de 1855, a de Graves, a de Saint-Émilion (pensada para ser revista a cada dez anos), a dos Crus Bourgeois e a dos Crus Artisans do Médoc. E o próprio CIVB lembra que um vinho sem classificação também pode ser grande.
No Médoc, a lista de 1855 tem cinco degraus: Premier, Deuxième (ou Second), Troisième, Quatrième e Cinquième Cru. Em Sauternes e Barsac são três: Premier Cru Supérieur, Premiers Crus e Seconds Crus. Muitas propriedades fazem também um segundo vinho, em geral de vinhas mais novas do mesmo terreno, mais frutado e fácil de beber jovem.
Com que combina
Tinto da margem esquerda, com Cabernet e tanino firme, pede carne com gordura: picanha, costela, borrego, entrecôte. O da margem direita, de Merlot, é mais macio e vai bem com bife com molho madeira, lasanha e frango assado com batata. Um Bordéus tinto simples, servido um pouco fresco, fica ótimo com charcutaria, como sugere o próprio CIVB. O branco seco de Sauvignon combina com peixe grelhado e salada. E o Sauternes enfrenta queijo azul, frango e até sushi. Tudo sugestão: se gostou de outro par, vá por outro par.
Uma lista feita em duas semanas
Em 1855, Paris recebeu uma Exposição Universal, e Bordéus quis mostrar os seus vinhos. A 5 de abril, a Câmara de Comércio da cidade mandou uma carta aos corretores a pedir a lista dos tintos classificados do departamento, cada um numa de cinco categorias. A 18 de abril, a lista estava pronta. Os corretores já tinham tudo à mão: organizaram uma hierarquia de preços que o comércio de Bordéus vinha a usar havia décadas.
E a lista quase não mudou. Segundo o conselho dos Grands Crus Classés en 1855, houve só duas alterações em mais de 150 anos: uma propriedade acrescentada entre os quintos a 16 de setembro de 1855 e uma promovida a primeiro em junho de 1973. Os brancos doces de Sauternes e Barsac ganharam uma lista à parte. É por isso que um rótulo do Médoc ainda carrega um título dado no tempo de Napoleão III.
As castas dos rótulos daqui
Nos 1.461 rótulos da pesquisa de Bordéus, as castas que mais aparecem. O número indica em quantos rótulos.
Os mais bem avaliados de Bordéus
Nota média de quem bebeu (X-Wines), de 1 a 5. Toque para ver a ficha.
- Château d'Yquem Sauternesnota ★ 4,8
- Le Pin Pomerolnota ★ 4,8
- Pétrus Pomerolnota ★ 4,8
- Château Cheval Blanc Saint-Émilion Grand Cru (Premier Grand Cru Classé)nota ★ 4,7
- Château Margaux (Premier Grand Cru Classé)nota ★ 4,7
- Château Latour Grand Vin Pauillac (Premier Grand Cru Classé)nota ★ 4,7
- Château Lafite Rothschild Pauillac (Premier Grand Cru Classé)nota ★ 4,7
- Château Haut-Brion Pessac-Léognan (Premier Grand Cru Classé)nota ★ 4,7
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