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Champagne: o lugar, as três castas e a bolha que nasce na garrafa
Champagne é a região do nordeste de França, a cerca de 150 quilómetros de Paris, onde nasce o espumante que leva o nome do lugar. Por lei, só se chama Champagne o espumante feito ali, com as regras dali, e a bolha nasce de uma segunda fermentação dentro da própria garrafa. O resto do mundo copia o método; o nome é deles.
Onde fica e como é o lugar
A Champagne fica a cerca de 150 quilómetros a nordeste de Paris e é a vinha mais a norte de França. São 34.200 hectares em 319 comunas de cinco departamentos (Marne, Aube, Aisne, Haute-Marne e Seine-et-Marne), numa área desenhada por uma lei de 1927. As quatro grandes partes são a Montagne de Reims, a Vallée de la Marne, a Côte des Blancs e a Côte des Bar.
O clima tem duas influências. A do oceano traz chuva regular e pouca diferença de temperatura entre as estações; a do continente traz geada por vezes forte no inverno e sol no verão. As vinhas ficam em encosta, de 90 a 300 metros de altitude, com inclinação média de 12%. Por baixo, quase tudo é calcário, com muito giz (a craie), que guarda água e segura a temperatura. A vinha está dividida em quase 281 mil parcelas, de 12 ares em média, pouco mais de mil metros quadrados cada.
As castas da região
Três castas fazem quase tudo: Pinot Noir (38% da vinha), Chardonnay (32%) e Meunier (30%), segundo o Comité Champagne, o organismo que reúne viticultores e casas da região. A Pinot Noir e a Meunier têm película escura; a Chardonnay é branca. Arbane, Petit Meslier, Pinot Blanc e Pinot Gris também são autorizadas, mas somam menos de 0,4% das vinhas. E a regra de 2025 abriu espaço, sob convénio, para uma casta nova escolhida para enfrentar o clima que muda, a Voltis.
Como sai espumante branco de uva tinta? Na prensa. Os cachos chegam inteiros e são espremidos devagar; o sumo escorre depressa e não dá tempo à película escura de o tingir. Por isso a vindima lá é toda à mão: a regra exige cacho inteiro, e a máquina de vindimar abana a planta e solta os bagos. Na época da vindima, cerca de 120 mil trabalhadores sazonais vão para as vinhas.
Que vinho sai de lá
O Champagne é sempre espumante, branco ou rosé. O mais comum é o brut sem colheita, o BSA: um lote de vários anos que a casa repete para manter o estilo. O millésime, com o ano no rótulo, vem de uma só colheita. Blanc de Blancs é feito só de uva branca, quase sempre Chardonnay; Blanc de Noirs, só de uva de película escura, Pinot Noir e Meunier. O rosé sai de duas maneiras: deixando o sumo em contacto com a película das uvas tintas, ou juntando ao vinho base de 5% a 20% de vinho tinto da própria Champagne.
O grau de doçura é escolhido no fim, na dose de licor que vai em cada garrafa. A escala do Comité Champagne, do mais seco ao mais doce: brut nature (menos de 3 gramas de açúcar por litro, sem açúcar acrescentado), extra brut (de 0 a 6), brut (menos de 12), extra-dry (de 12 a 17), sec (de 17 a 32), demi-sec (de 32 a 50) e doux (mais de 50). Repare na rasteira: o extra-dry é mais doce do que o brut.
Do cacho à rolha, passo a passo
O método da Champagne tem duas fermentações: a primeira faz o vinho, a segunda faz a bolha, dentro da garrafa. Lá dentro, a pressão fica entre 5 e 6 bar, cerca de três vezes a de um pneu de carro. É para aguentar isso que existe a gaiola de arame da rolha, o muselet. O caminho, por ordem:
- Vindima à mão e prensagem lenta dos cachos inteiros.
- Primeira fermentação, em cuba: o sumo torna-se vinho seco, sem açúcar a sobrar.
- Lote: vinhos de castas, lugares e anos diferentes juntam-se no vinho base.
- Tiragem: o vinho vai para a garrafa com um pouco de açúcar, e a garrafa é fechada.
- Segunda fermentação, a prise de mousse: a levedura transforma o açúcar em álcool e gás carbónico, e o gás fica preso no vinho.
- Descanso sobre as borras (as leveduras que terminaram o trabalho): pelo menos 15 meses desde a tiragem antes de ir para o mercado, e 36 meses no millésime.
- Remuage: no pupitre, a garrafa é rodada aos poucos até o depósito descer para o gargalo.
- Dégorgement: o gargalo é congelado numa solução a cerca de −27 °C, a garrafa é aberta e a pressão expulsa o gelo com o depósito.
- Dosage: entra o licor de expedição, que decide se o vinho sai brut, demi-sec ou outro, e a rolha ganha o muselet.
O que diz o rótulo
O rótulo traz por lei a palavra Champagne, o grau de doçura (brut, extra brut, demi-sec...), o teor alcoólico, o volume e o nome de quem o fez. Se aparece um ano, é millésime; sem ano, é lote de várias colheitas. Grand Cru e Premier Cru falam da comuna de onde veio a uva. Desde 1911 a Champagne tinha uma escala que dava a cada comuna uma percentagem, de 80% a 100%, usada no preço da uva; um decreto de 1952 reservou Grand Cru às comunas com 100% e Premier Cru às de 90% para cima. A escala acabou em 2010, mas as comunas mantiveram o nome.
Vale a pena conhecer três siglas que o Comité Champagne usa para dizer quem fez o vinho. RM (récoltant-manipulant) é o viticultor que faz o espumante só com a própria uva. NM (négociant-manipulant) é a casa que compra uva, além da sua, e faz o vinho. RC (récoltant-coopérateur) é o viticultor que leva a uva à cooperativa e recebe o vinho de volta para vender.
Com que combina
O brut sem colheita é o pau para toda a obra: o Comité Champagne sugere abrir com bolachas salgadas, castanhas, azeitona verde e queijo em cubinhos, e diz que acompanha a refeição inteira. No Brasil, vai bem com rissóis, coxinha, camarão panado, sushi e peixe grelhado. O rosé enfrenta salmão e pato. Sec e demi-sec são os da sobremesa: tarte de frutos vermelhos, doces de pastelaria. Sirva entre 8 e 10 °C (meia hora num balde com metade água, metade gelo resolve), num copo de tulipa, que mostra mais o aroma do que a flûte estreita. Tudo sugestão: se gostou de outro par, vá por outro par.
Ninguém inventou o champanhe
O vinho com bolha aparece sozinho: uma fermentação que para e depois volta deixa gás preso no vinho. O Comité Champagne diz com todas as letras que o champanhe não foi inventado por ninguém. O que a Champagne fez, entre 1670 e 1720, foi decidir fazer espumante de propósito, em vez de esperar pelo acaso, e criar técnicas para isso. Nessa época, um monge da abadia de Hautvillers ficou famoso por montar lotes pensados, juntando vinhos de lugares diferentes.
O resto veio aos poucos. Em 1770 apareceu uma garrafa de vidro bem mais grosso, que aguentava a pressão. No início do século XIX vieram os pupitres. Em 1860, Pasteur mostrou que eram as leveduras que transformavam o açúcar em álcool e gás. Em 1884 chegou o dégorgement com gelo, usado até hoje. A luta pelo nome começou cedo: em 1887, um tribunal francês reconheceu que o nome Champagne era só dos vinhos da Champagne. E desde 4 de julho de 2015 as encostas, casas e caves da região são Património Mundial da UNESCO.
As castas dos rótulos daqui
Nos 324 rótulos da pesquisa de Champagne, as castas que mais aparecem. O número indica em quantos rótulos.
Os mais bem avaliados de Champagne
Nota média de quem bebeu (X-Wines), de 1 a 5. Toque para ver a ficha.
- Krug Clos du Mesnil Blanc de Blancs Brut Champagnenota ★ 4,8
- Bollinger Vieilles Vignes Françaises Blanc de Noirs Brut Champagnenota ★ 4,8
- Dom Pérignon P2 Plénitude Brut Champagnenota ★ 4,8
- Jacques Selosse Lieux-dits Le Bout du Clos Extra Brut Champagne Grand Cru 'Ambonnay'nota ★ 4,8
- Dom Pérignon Oenothèque Brut Champagnenota ★ 4,8
- Salon Le Mesnil Blanc de Blancs (Cuvée S) Brut Champagnenota ★ 4,8
- Krug Collection Brut Champagnenota ★ 4,8
- Jacques Selosse Substance Blanc de Blancs Brut Champagne Grand Cru 'Avize'nota ★ 4,7
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