As castas da casa · tinta
Carignan: a casta de tanino firme que renasce nas vinhas velhas
Carignan é uma casta tinta de cor escura, acidez viva e tanino firme. Em Espanha dá pelos nomes de Cariñena, Mazuelo ou Samsó; em Itália, Carignano. Produz bastante, e quando produz demais o tanino fica duro. De vinha velha, com pouca uva por pé, a história muda: é aí que dá alguns dos tintos mais interessantes do sul de França, de Espanha, da Sardenha e do Chile.
De onde vem
A origem dela é uma discussão em aberto. No VIVC, o catálogo internacional de castas, o nome principal é Carignan Noir e o país de origem registado é a França. O teste de ADN encontrou um dos pais, uma casta chamada Castellana Blanca; o outro continua desconhecido. Do lado espanhol, a regra da denominação Cariñena, em Aragão, chama à Cariñena e à Garnacha variedades nativas da região.
O nome espanhol, Cariñena, é também o de uma cidade de Aragão, que o governo regional liga à vila romana de Carae. Em Rioja, o Conselho Regulador diz que há registos da casta por ali há vários séculos. E na Sardenha, a regra do Carignano del Sulcis lembra que o nome popular da casta é Axina de Spagna, ou seja, uva de Espanha, e que uma das teorias é que chegou à ilha durante o domínio espanhol.
Como é no copo
Cor escura, acidez marcante e tanino de sobra. Tanino é aquele aperto na gengiva, e na Carignan é forte. O Conselho Regulador de Rioja resume: muito tanino, acidez importante, ideal para envelhecer e para dar força a outros vinhos no lote. A ficha de Rioja fala ainda de aromas amargos e de mato, e avisa: com produção alta e uva pouco madura, o tanino fica adstringente; aí serve melhor para vinho jovem, de maceração carbónica.
Em terra pobre, com vinha velha e pouca uva, sai vinho de qualidade, diz a mesma fonte. Nas Corbières, no Languedoc, a regra explica o papel dela no blend, a mistura de castas: a Carignan dá estrutura, e as outras trazem redondeza e aromas. O resultado são tintos equilibrados, encorpados, com fruta vermelha intensa e especiaria, que podem ser bebidos jovens mas aguentam bem a guarda.
Com que combina
Acidez alta e tanino firme pedem comida com gordura e sabor. Vai bem com costela no bafo, carne estufada, cabrito, javali, linguiça de porco, cassoulet e feijoada: a acidez limpa a boca entre uma garfada e outra. Também acompanha pizza de chouriço, enchidos, queijo meia-cura e um bom hambúrguer. Um Carignan jovem, de maceração carbónica, leve e frutado, vai com petiscos de tasca. Tudo sugestão: se gostou de outro par, vá por outro par.
Onde brilha hoje
Em França, eram 33 mil hectares em 2015, segundo a OIV. Nas Corbières é casta principal, limitada a 50% da vinha de tinto e a 40% da de rosé, e a regra diz que continua a ser a preferida nos sítios mais difíceis: clima quente, seco e com vento em quase 300 dias do ano. No Vale do Rhône tem papel secundário: 4.104 hectares nas denominações em 2023, segundo a Inter Rhône.
Em Espanha, aparece com três nomes. Em Cariñena, é uma das castas principais da denominação. No Priorat, a carinyena é, ao lado da garnatxa negra, uma das duas tintas recomendadas pela regra. Em Rioja, com o nome de Mazuelo, é minoria: menos de 2% da vinha de tintas, usada para dar estrutura ao Tempranillo nos vinhos de guarda longa.
Na Sardenha, a denominação Carignano del Sulcis pede pelo menos 85% da casta, e a versão Superiore só sai de vinhas conduzidas em alberello, o pé baixo em forma de arbusto. No Chile, o vale do Maule tem 726 hectares de Carignan, segundo a Wines of Chile, que descreve ali algumas das vinhas mais antigas do país, de sequeiro e conduzidas em cabeça: um bom sítio para encontrar Carignan especial.
Os outros nomes dela
O VIVC regista 104 sinónimos. Carignan e Carignane em França e fora dela, Cariñena, Mazuelo ou Mazuela e Samsó em Espanha, Carignano em Itália. Na Sardenha, o registo oficial italiano reconhece Bovale Grande como sinónimo oficial. Um cuidado: Samsó também aparece na lista de sinónimos da Cinsault no VIVC, e Mataro, que é a Mourvèdre, aparece na da Carignan. Nome de casta viaja e baralha-se.
Uva de Espanha numa ilha de areia
No sudoeste da Sardenha, na ilha de Sant'Antioco, a Carignan guarda um segredo: vinha de pé-franco. A filoxera, praga que ataca a raiz da videira, não fez estragos nos solos de areia da ilha. Por isso, ali a casta continua plantada na própria raiz, conduzida em alberello latino, como conta a regra do Carignano del Sulcis. É uma maneira de plantar que contém o vigor da planta, para aguentar melhor a seca num chão pouco fértil.
O mesmo texto traz duas teorias para a chegada da casta. A primeira: fenícios ou cartagineses, que dominaram o Sulcis através de duas cidades púnicas, Solci e Nora, hoje Sant'Antioco e Pula, onde estão as maiores plantações. A segunda: os espanhóis, séculos depois, durante o domínio da ilha. A Sardenha não escolheu de vez: chama à Carignan uva de Espanha e continua a plantá-la.
Os mais bem avaliados com Carignan
Nota média de quem bebeu (X-Wines), de 1 a 5. Toque para ver a ficha.
- Álvaro Palacios L'Ermita Velles Vinyes Prioratnota ★ 4,8
- Gérard Bertrand Clos d'Oranota ★ 4,6
- Bodegas Mas Alta La Creu Altanota ★ 4,5
- Costers del Siurana Clos de L'Obacnota ★ 4,5
- Ferrer Bobet Priorat Vinyes Vellesnota ★ 4,5
- San Giovenale Habemus Lazio Rosso (White Label)nota ★ 4,5
- Undurraga Altazornota ★ 4,5
- Mas Doix Doixnota ★ 4,5
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