vinhozinho

← Guia Sem Frescura

Guia Sem Frescura · Nº 15

Como abrir uma garrafa de vinho sem drama (e o espumante sem estoiro)

O saca-rolhas de sommelier em quatro tempos, o que muda nos outros abridores, o que fazer quando a rolha se parte, a maneira segura de abrir sem abridor nenhum, e o espumante, que sai com um suspiro. Tudo com fonte, nada de truques de vídeo.

O saca-rolhas de sommelier, em quatro tempos

É o saca-rolhas dobrável de bolso: uma pequena lâmina, a espiral e uma alavanca com dois degraus. É o que os sommeliers usam, e é o mais fácil de dominar ao fim de duas garrafas. O segredo é não ter pressa em nenhum dos quatro tempos.

  1. Corte a cápsula abaixo do anel. Garrafa pousada na mesa, a lâmina passa logo abaixo do anel do gargalo (o segundo “lábio”): à frente, atrás e no topo. Dedos longe da lâmina e da borda da cápsula, que corta. O motivo é prático: assim o vinho não escorre por trás da cápsula na altura de servir.
  2. Centre a espiral e entre a direito. A ponta vai ao centro da rolha (os sommeliers põem-na um bocadinho fora do centro, para a espiral entrar direita) e roda-se, a entrar a direito, sem inclinar.
  3. Rode até sobrar uma volta. Nunca atravesse. Pare quando sobrar uma ou duas voltas da espiral de fora, antes do fundo: assim a base da rolha não fura.
  4. Apoie e levante, em dois tempos. Encaixe o primeiro degrau da alavanca na boca da garrafa, segure o encaixe com a outra mão e levante o cabo: a rolha sobe até meio. Passe para o segundo degrau, levante de novo e termine a puxar com a mão, devagar. Sem estoiro: o padrão dos sommeliers é tirar a rolha sem barulho.
O saca-rolhas de sommelier em quatro tempos: a faca corta a cápsula abaixo do anel, a espiral entra centrada na rolha, roda sem atravessar, e a alavanca apoiada no gargalo levanta a rolha.
fig. 1O saca-rolhas de sommelier, em quatro tempos: 1 corte a cápsula abaixo do anel, 2 centre a espiral, 3 rode sem atravessar a rolha, 4 apoie a alavanca no gargalo e levante.

Os outros abridores

  • De asas (o de borboleta): apoie a base na boca da garrafa, centre a espiral e rode o cabo: as asas sobem em V. Com as duas mãos, baixe as asas e a rolha sobe. É rápido. Para rolha velha ou frágil, o de sommelier dá mais controlo e costuma ter a espiral mais fina.
  • De rosca simples (o “T”): não tem alavanca. Roda-se a espiral até quase ao fim e puxa-se a direito para cima, com a garrafa bem segura. Exige força de braço.
  • Tampa de rosca: segure a garrafa pela base, rode a tampa e o anel rompe-se; a saia fica no gargalo. Não precisa de ferramenta. Vedante não é categoria: há vinho sério de rosca.
  • Rolha sintética (a lisa, de plástico): a mesma técnica do saca-rolhas de sommelier, mas ela é mais dura. Espiral fina, devagar, sem forçar. Abridor de alavanca grande pode empurrar a rolha e encravar de vez.

A rolha partiu-se (ou esfarelou-se)

Acontece com rolha velha, seca, ou com espiral que entrou torta. A regra é uma: sem força. Quanto mais força, pior fica.

  • Entre de lado. Com o pedaço que ficou no gargalo, entre de novo com a espiral inclinada a uns 45 graus, agarre o que der e puxe de uma vez, sem rodar, com o mínimo de força.
  • Não resultou? Empurre e coe. Empurre o resto para dentro com o cabo de uma colher e sirva a passar o vinho por um coador fino, filtro de café ou pano limpo. Na altura de servir, o cabo de uma colher pequena segura a rolha longe do gargalo.
  • Pedacinhos de rolha no copo não fazem mal. E rolha esfarelada não quer dizer vinho estragado: prove antes de decidir. Cheiro a cartão molhado é outra história, a da rolha com defeito (TCA).

Sem saca-rolhas: o que se pode fazer com alguma segurança

  • Parafuso comprido e alicate (ou martelo). Enrosque um parafuso no centro da rolha com uma chave de fendas até ficarem uns 2,5 cm de fora, prenda a cabeça com o alicate ou com as orelhas do martelo, como quem tira um prego, e puxe a direito. É o improviso que mais se parece com um saca-rolhas: não bate na garrafa, não usa lâmina, e a rolha sai inteira.
  • Empurrar a rolha para dentro. Cabo de colher de pau, chave de fendas ou faca de manteiga (o lado sem gume) sobre a rolha, garrafa bem segura, pressão firme, a direito e devagar até ela cair. Vai salpicar: faça-o no lava-loiça. Depois é coar, como na rolha partida. A rolha não altera o sabor no tempo em que ali fica.

O que fica de fora, e porquê. Bater com a garrafa no sapato ou na parede pode partir o vidro (e, no teste que fizeram, foram 10 a 15 minutos a bater). Faca, serra e garfo no lugar do saca-rolhas é um acidente à espera de acontecer. Aquecer o gargalo com um isqueiro, nem pensar. Pedaço de rolha no copo é uma coisa; caco de vidro é outra.

Espumante é outra conversa

Dentro da garrafa de espumante há 5 a 6 bar de pressão, cerca de três vezes a pressão de um pneu de carro, diz o Comité Champagne. A gaiola de arame existe para a rolha não sair sozinha. Fresca e sem agitar, a pressão fica sob controlo: gás quente expande-se, e agitar aumenta a pressão.

  1. Arrefeça antes: 8 a 10 °C (é o número da denominação; vai encontrar outros por aí). Balde com metade água, metade gelo, 20 a 30 minutos; ou o fundo do frigorífico durante algumas horas. Fresca, a rolha sai mansa. Com pressa, o balde com sal trata disso em 15.
  2. Tire a cápsula, polegar na rolha, gaiola solta. Seis meias-voltas na argola. A gaiola pode ficar frouxa em cima da rolha; o que não pode é tirar a mão de cima dela, nem que seja por um segundo.
  3. Pano por cima, 45 graus, longe das pessoas. Um pano da loiça sobre a rolha, e a mão agarra-a por cima do pano. Incline a garrafa a 45 graus, apontada para longe de qualquer pessoa (e de vidros, candeeiros, televisão).
  4. Rode a garrafa, não a rolha. Segure a rolha quieta e rode a garrafa pela base, no ar ou dentro do balde, nunca apoiada no corpo. A pressão vai empurrando e a mão segura: a rolha sai com um suspiro, um “fsss” baixinho. Mantenha os 45 graus durante um ou dois segundos, até o gás assentar: é o que evita espuma pela mesa.
Um espumante em três tempos: a gaiola solta com um pano por cima e o polegar a segurar a rolha; a garrafa a 45 graus a apontar para longe; e a garrafa a rodar devagar até a rolha sair com um suspiro.
fig. 2O espumante, em três tempos: 1 gaiola solta, pano por cima e o polegar na rolha o tempo todo, 2 garrafa a 45 graus, apontada para longe das pessoas, 3 rode a garrafa (não a rolha) até ela sair com um suspiro.

Porquê tanto cuidado: a rolha sai a mais de 50 km/h, dizem os oftalmologistas americanos, e o olho não gosta. Sabrar a garrafa em casa, nem pensar: até a Veuve Clicquot o pede.

Fontes desta página

  • Court of Master Sommeliers Europe, Service Standards 24.1 (cápsula abaixo do anel, espiral fora do centro, sem barulho, 45° no espumante, polegar na rolha) — courtofmastersommeliers.org
  • Wine Folly, How To Open a Wine Bottle (The Right Way): os quatro tempos do saca-rolhas de sommelier — winefolly.com
  • Wine Folly, How to Open Champagne Safely: seis meias-voltas na gaiola, 45 graus durante um ou dois segundos — winefolly.com
  • Pulltap’s (fabricante): o saca-rolhas de dois tempos, feito para tirar a rolha sem a danificar — pulltaps.com
  • America’s Test Kitchen, How to Use a Winged Corkscrew — americastestkitchen.com
  • Ridge Vineyards, Different Types of Wine Openers: rosca simples e alavanca grande — ridgewine.com
  • Wine Spectator (Dr. Vinny): rolha sintética, espiral fina e devagar — winespectator.com
  • Wine Spectator: rolha partida, entrar a 45 graus — winespectator.com
  • Wine Spectator: rolha esfarelada, sem força; os pedacinhos não fazem mal — winespectator.com
  • Wine Spectator: rolha empurrada para dentro, coar com filtro de café ou coador — winespectator.com
  • Wine Spectator: abrir sem saca-rolhas, empurrar a rolha para dentro — winespectator.com
  • Decanter: rolha partida, entrar a 45 graus e puxar de uma vez; rolha esfarelada não é vinho estragado; a colher pequena segura a rolha ao servir — decanter.com
  • VinePair, 10 Ways to Open a Wine Bottle Without a Corkscrew: o parafuso com alicate, e porque é que o sapato e a faca ficam de fora — vinepair.com
  • NPR/WGBH: o método do sapato testado, 10 a 15 minutos a bater — wgbh.org
  • Comité Champagne, FAQ: 5 a 6 bar, três vezes um pneu de carro — champagne.fr
  • Comité Champagne: 8 a 10 °C, balde meio água meio gelo durante 20 a 30 minutos — champagne.fr
  • American Academy of Ophthalmology: pano, 45 graus, rodar a garrafa; a rolha até 34 mph (uns 55 km/h) — aao.org
  • Seppelt Great Western: a gaiola (muselet) e as seis meias-voltas — seppeltgreatwestern.com.au
  • Veuve Clicquot: não sabrar a garrafa em casa — veuveclicquot.com
  • Wine Folly, Corks vs Screw Caps: a tampa de rosca — winefolly.com
  • Australian Wine Research Institute: as pontes da tampa de rosca rompem-se na primeira abertura — awri.com.au

✓ Regra da casa: sem fonte, não se publica.

A casa está aberta. Deixe o e-mail e deguste prove primeiro cada novidade: rondas novas, roteiros e a próxima Contrarrótulo.

O primeiro gole de informação será para si.

VEJA TAMBÉM ↓