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Vale do Loire: o rio dos brancos frescos, do Atlântico aos castelos
O Vale do Loire acompanha o rio Loire do Atlântico, perto de Nantes, até o centro da França. É terra de branco: Sauvignon Blanc em Sancerre e Pouilly-Fumé, Chenin em Vouvray, Melon no Muscadet. Nos tintos, manda a Cabernet Franc de Chinon. E tudo isso no meio dos castelos que fizeram parte do vale virar Patrimônio Mundial.
Onde fica e como é o lugar
O vinhedo segue o rio de oeste a leste: começa no Atlântico, no Pays Nantais, sobe pelo Anjou e por Saumur, atravessa a Touraine e chega ao Centre-Loire, onde ficam Sancerre e Pouilly. Ao todo são uns 57 mil hectares em 14 departamentos, da Vendée ao Puy-de-Dôme, o que faz do Loire a terceira região de vinho da França, segundo o InterLoire, o órgão que reúne os produtores do vale. Só de Nantes a Vendôme são 42 mil hectares.
O clima muda no caminho. Em Nantes e no Anjou, o oceano manda: inverno ameno, verão moderado e pouca diferença de temperatura. Mais pro leste, na Touraine, entra o continente, com mais sol e mais variação de temperatura. O rio, com seus afluentes, ajuda a segurar a temperatura das encostas.
O chão é uma colcha de retalhos. No oeste, rocha antiga, como gnaisse, xisto e granito, onde nasce o Muscadet. No Anjou e em Saumur aparece o tuffeau, um calcário; na Touraine, areia e argila com sílex; no Centre-Loire, os calcários e a sílex de Sancerre e Pouilly. E o trecho do vale entre Sully-sur-Loire e Chalonnes-sur-Loire, com suas cidades, castelos e vinhedos, é Patrimônio Mundial da UNESCO desde 30 de novembro de 2000.
As uvas da região
O InterLoire conta mais de 100 uvas, com sete principais: Cabernet Franc, Chenin Blanc, Melon, Sauvignon Blanc, Gamay, Chardonnay e Grolleau. A marca do Loire é a uva sozinha na garrafa: Melon no Muscadet; Chenin, Cabernet e Gamay em Anjou, Saumur e Touraine; Sauvignon Blanc e Pinot Noir no Centre-Loire. A Chenin, também chamada Pineau de la Loire, nasceu lá, e a Cabernet Franc é a tinta número um do vale.
No Centre-Loire, a Sauvignon Blanc responde por 80,9% da produção, e a Pinot Noir, por 16,4%. Em Pouilly, a Sauvignon tem apelido, Blanc-Fumé, por causa da pruína, aquele pozinho fino e meio esfumaçado que cobre o bago maduro. Já a Grolleau, nascida na Touraine, dá rosé fácil, frutado e meio seco.
Que vinho sai de lá
O Loire faz as quatro cores, branco, tinto, rosé e espumante, e o branco é a que mais sai. A Chenin é a uva dos extremos: colhida no começo da vindima, dá branco seco e espumante; colhida no fim, dá os grandes doces do vale, como os de Coteaux du Layon. Vouvray, a leste de Tours, é só Chenin e sai seco, meio seco, doce ou espumante, este pelo método tradicional, com a bolha feita na garrafa. Saumur também é terra de espumante.
O Muscadet, no oeste, é branco seco e leve de Melon, feito pra ostra. O Muscadet Sèvre et Maine responde por quase 75% do volume da família. Muitos levam no rótulo sur lie: o vinho descansa sobre as borras finas (as leveduras que sobram da fermentação) pelo menos até 1º de março do ano seguinte, passa no máximo um verão no tanque e pode guardar um leve formigamento de gás natural. Nos tintos, Chinon, Bourgueil e Saumur-Champigny são de Cabernet Franc, e o Rosé d'Anjou é um rosé macio, com um toque de doce.
O que diz o rótulo
O Loire tem 34 AOPs, as denominações de origem, e uma IGP, a Val de Loire. No rótulo, o nome do lugar quase sempre já diz a uva, mesmo quando ela não aparece escrita: Sancerre e Pouilly-Fumé brancos são Sauvignon Blanc; Vouvray é Chenin; Muscadet é Melon; Chinon tinto é Cabernet Franc, sozinha ou como maioria; e Sancerre tinto ou rosé é Pinot Noir. Pouilly-sur-Loire, vizinho do Pouilly-Fumé, é outra coisa: um branco de Chasselas.
Algumas palavras ajudam: sec é seco, demi-sec é meio seco, moelleux e liquoreux são doces, e sur lie é o Muscadet que descansou nas borras. No Muscadet Sèvre et Maine, o rótulo pode trazer nomes de lugar, como Clisson, Gorges ou Château-Thébaud; esses ficam nas borras pelo menos até 1º de outubro do segundo ano depois da colheita. E as datas: Sancerre virou AOC em 1936 pro branco e em 1959 pro tinto e o rosé; Pouilly-Fumé, em 1937.
Com o que combina
Muscadet e ostra é casamento antigo; vale também pra mexilhão, camarão, casquinha de siri, sushi e peixe grelhado, como sugere o próprio InterLoire. Sancerre e Pouilly-Fumé vão com queijo de cabra, salada e peixe com ervas. O Chenin seco encara frango e porco; o Vouvray meio seco, comida asiática e moqueca. Chinon mais leve acompanha frios, frango assado e pizza; o de guarda, carne de panela. E o Rosé d'Anjou vai do aperitivo à sobremesa, ótimo com petisco agridoce. Tudo sugestão: gostou de outro par, vá de outro par.
Sancerre já foi terra de Pinot Noir
Quem pensa em Sancerre pensa em Sauvignon Blanc, mas a fama começou no vermelho. A vinha de lá aparece nos escritos de Gregório de Tours, em 582, e cresceu no século 12 com os monges agostinianos de Saint-Satur. O vinho que deu nome a Sancerre era tinto de Pinot Noir, levado pelo rio. No fim do século 19, a filoxera, uma praga que ataca a raiz, destruiu o vinhedo, e no lugar do Pinot replantaram Sauvignon Blanc, que se deu bem com o clima.
Pouilly, na outra margem do Loire, também mudou de rumo. No começo do século 19, com o trem, o vinhedo passou a mandar Chasselas como uva de mesa pros mercados de Paris, e isso fez a fortuna dos vinhateiros até a concorrência do Sul, o míldio e a filoxera, nos anos 1880. A área foi demarcada em 1929, e hoje sobram só uns 24 hectares de Chasselas, no Pouilly-sur-Loire, ao lado dos 1.400 de Sauvignon do Pouilly-Fumé.
As uvas dos rótulos daqui
Nos 274 rótulos da busca do Vale do Loire, as uvas que mais aparecem. O número é em quantos rótulos.
Os mais bem avaliados do Vale do Loire
Nota média de quem bebeu (X-Wines), de 1 a 5. Toque pra ver a ficha.
- Didier Dagueneau (Louis-Benjamin Dagueneau) Les Jardins de Babylone Moelleuxnota ★ 4,6
- Clos Rougeard Brézé Saumur Blancnota ★ 4,5
- Didier Dagueneau (Louis-Benjamin Dagueneau) Silexnota ★ 4,5
- Didier Dagueneau (Louis-Benjamin Dagueneau) Pur Sangnota ★ 4,4
- de Ladoucette Baron de L Pouilly-Fuménota ★ 4,4
- Nicolas Joly Clos de la Coulée de Serrantnota ★ 4,4
- Jean-Paul Balland Sancerre Blanc Grande Cuvéenota ★ 4,4
- André Perret Condrieu Cherynota ★ 4,3
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