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As castas da casa · tinta

Carmenère: a casta que o Chile encontrou escondida

Carmenère é uma casta tinta que dá vinho de cor escura, fruta madura e um toque verde que lembra pimento. Nasceu em Bordéus, em França, mas hoje é a assinatura do Chile, onde passou décadas plantada com o nome de Merlot.

134 rótulos da casa levam Carmenère98 só de Carmenèredo Brasil e do Chile

De onde vem

A Carmenère é de Bordéus. O VIVC, catálogo internacional de castas, regista origem francesa e nomes antigos como Grande Vidure e Carbonet, este ligado ao Médoc. Quanto aos pais, um estudo de ADN de 2009 aponta a Cabernet Franc como provável pai ou mãe; o VIVC ainda lista mais do que uma proposta, portanto a árvore genealógica continua em aberto.

No século XIX, a filoxera, um inseto que ataca a raiz da videira, arrasou as vinhas francesas. Na replantação, a Carmenère ficou de fora e praticamente desapareceu de Bordéus: o próprio Boursiquot só a conhecia da coleção de Vassal. No Chile, que escapou à praga, sobreviveu, só que confundida com a Merlot: era plantada, vinificada e vendida com o nome da outra.

Como se descobriu a troca

Quem desfez o nó foi o ampelógrafo francês Jean-Michel Boursiquot (ampelógrafo é quem reconhece a casta pela folha, pelo cacho e pela flor). Conta ele que, em novembro de 1994, numa visita à Viña Carmen, olhou para uma parcela apresentada como Merlot e estranhou as folhas novas demasiado alaranjadas e os estames da flor meio torcidos. Era Carmenère, que ele via numa vinha pela primeira vez.

Vai encontrar outros anos por aí, como 1993. Fique com a palavra de quem lá estava: novembro de 1994. Anos depois, um estudo de ADN assinado pelo próprio Boursiquot e colegas confirmou que Carmenère e Merlot são castas diferentes.

Como é no copo

Cor escura, fruta madura (ameixa, amora, compota de frutos escuros) e a imagem de marca: um cheiro verde, a pimento ou a mato. Isso vem das pirazinas, substâncias que dão o cheiro do pimento verde. Uma investigação chilena mediu na Carmenère níveis muito mais altos do que na maioria dos Cabernet Sauvignon.

A dose de verde muda com o clima do ano e com o clone plantado, por isso há Carmenère quase só de fruta e há Carmenère bem herbáceo. Gostou do verde? Ótimo. Prefere mais fruta? Troque de produtor ou de colheita até encontrar o seu.

Uma folha de videira, um cacho de uva tinta e um copo com o vinho da Carmenère.
fig. 1Do cacho ao copo: cor escura e, no nariz, um verde de pimento.

Com que combina

O verde do Carmenère conversa com comida que também tem pimento, cominhos e ervas: carne estufada com pimento, picadinho, kafta, linguiça na brasa com molho vinagrete, frango assado com ervas, escondidinho de carne-seca. A comida mexicana também vai bem. E um Carmenère mais frutado enfrenta uma pizza de chouriço sem problemas. Tudo sugestão: o melhor par é aquele de que gostou.

Onde brilha hoje

O Chile, de longe. No cadastro oficial de 2024 do SAG, o serviço agrícola chileno, eram 9.517 hectares, a quarta casta de vinho mais plantada do país, atrás de Cabernet Sauvignon, Sauvignon Blanc e País. A Wines of Chile destaca os vales de Colchagua e Cachapoal, e o Maipo também tem Carmenère de renome.

Nos outros países da casa, é raridade. Na Argentina, o INV contava 51 hectares em 2024. No Brasil, um levantamento da Embrapa na Campanha Gaúcha encontrou menos de meio hectare em 2015. Em Portugal, fica fora da lista de castas mais plantadas do IVV. Curiosidade: a China também tem Carmenère; a OIV contava lá 8 mil hectares em 2015, contra 11 mil no Chile.

Os outros nomes dela

Primeiro, a grafia: Carmenère, com um acento, e Carménère, com dois, aparecem em fontes oficiais. O SAG chileno escreve Carmenère; a Wines of Chile, que promove o vinho chileno no estrangeiro, prefere Carménère; o VIVC, que não usa acentos, grava CARMENERE. Pode escrever de qualquer maneira.

Entre os sinónimos do VIVC estão Grande Vidure (o SAG ainda regista a casta como “Carmenère – Grande Vidure”), Carbonet, Cabernelle e Cabernet Gernischt. E, no Chile, durante décadas, o nome dela foi simplesmente Merlot.

Para começar: Carmenère por faixa de preço

A faixa de preço que a casa viu nas grandes lojas do Brasil, no mês indicado ao lado. O preço muda; a faixa costuma ficar.

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Os mais bem avaliados com Carmenère

Nota média de quem bebeu (X-Wines), de 1 a 5. Toque para ver a ficha.

Ver os 134 rótulos com Carmenère na pesquisa →

A Carmenère é a casta que voltou do sumiço com outro nome no crachá. Abra um, procure o pimento no copo e decida: é da equipa do verde ou da equipa da fruta?

Fontes desta página

  • VIVC — Carmenere, passaporte n.º 2109 — www.vivc.de
  • Decanter China — entrevista com Jean-Michel Boursiquot (Julien Boulard MW, 2016) — www.decanterchina.com
  • SAG (Chile) — Catastro Vitícola 2024, relatório executivo — www.sag.gob.cl
  • Belancic e Agosin (2007) — Methoxypyrazines in Grapes and Wines of Vitis vinifera cv. Carmenere, AJEV — www.ajevonline.org
  • UC Davis — resumo de Boursiquot et al. 2009, Parentage of Merlot and related winegrape cultivars — wineserver.ucdavis.edu
  • OIV — Distribution of the world's grapevine varieties (Focus 2017) — www.oiv.int
  • Wines of Chile — Wine Regions Map — www.winesofchile.org
  • INV — Superficie con viñedos 2024 (datos.magyp.gob.ar) — datos.magyp.gob.ar
  • Embrapa — Campanha Gaúcha: indicação geográfica de vinhos (Tabela 8.3, 2015) — www.infoteca.cnptia.embrapa.br
  • IVV — Castas mais utilizadas no Continente, 2025 — www.ivv.gov.pt
  • Rótulos, notas, castas e regiões da lista da casa: X-Wines, base científica aberta (de Azambuja, R. X. et al., 2023), verificada pela casa — github.com

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