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As uvas da casa · tinta

Carmenère: a uva que o Chile achou escondida

Carmenère é uma uva tinta que dá vinho de cor escura, fruta madura e um toque verde que lembra pimentão. Nasceu em Bordeaux, na França, mas hoje é a assinatura do Chile, onde passou décadas plantada com o nome de Merlot.

66 rótulos da casa levam Carmenère46 só de Carmenèrede Chile

De onde vem

A Carmenère é de Bordeaux. O VIVC, catálogo internacional de uvas, registra origem francesa e nomes antigos como Grande Vidure e Carbonet, este ligado ao Médoc. Sobre os pais, um estudo de DNA de 2009 aponta a Cabernet Franc como provável pai ou mãe; o VIVC ainda lista mais de uma proposta, então a árvore da família segue em aberto.

No século 19, a filoxera, um inseto que ataca a raiz da videira, arrasou os vinhedos franceses. Na replantação, a Carmenère ficou de fora e praticamente sumiu de Bordeaux: o próprio Boursiquot só a conhecia da coleção de Vassal. No Chile, que escapou da praga, ela sobreviveu, só que confundida com a Merlot: era plantada, vinificada e vendida com o nome da outra.

Como descobriram a troca

Quem desfez o nó foi o ampelógrafo francês Jean-Michel Boursiquot (ampelógrafo é quem reconhece uva pela folha, pelo cacho e pela flor). Ele conta que, em novembro de 1994, visitando a Viña Carmen, olhou uma parcela apresentada como Merlot e estranhou as folhas novas alaranjadas demais e os estames da flor meio torcidos. Era Carmenère, que ele via num vinhedo pela primeira vez.

Você vai achar outros anos por aí, como 1993. Fique com a palavra de quem estava lá: novembro de 1994. Anos depois, um estudo de DNA assinado pelo próprio Boursiquot e colegas confirmou que Carmenère e Merlot são uvas diferentes.

Como é no copo

Cor escura, fruta madura (ameixa, amora, geleia de frutas escuras) e a marca registrada: um cheiro verde, de pimentão ou de mato. Isso vem das pirazinas, substâncias que dão o cheiro do pimentão verde. Uma pesquisa chilena mediu na Carmenère níveis muito mais altos que na maioria dos Cabernet Sauvignon.

A dose de verde muda com o clima do ano e com o clone plantado, então tem Carmenère quase só de fruta e tem Carmenère bem herbáceo. Gostou do verde? Ótimo. Prefere mais fruta? Troque de produtor ou de safra até achar o seu.

Com o que combina

O verde do Carmenère conversa com comida que também tem pimentão, cominho e ervas: carne de panela com pimentão, picadinho, kafta, linguiça na brasa com vinagrete, frango assado com ervas, escondidinho de carne-seca. Comida mexicana também vai bem. E um Carmenère mais frutado encara uma pizza de calabresa numa boa. Tudo sugestão: o melhor par é o que você gostou.

Onde ela brilha hoje

Chile, de longe. No cadastro oficial de 2024 do SAG, o serviço agrícola chileno, eram 9.517 hectares, a quarta uva de vinho mais plantada do país, atrás de Cabernet Sauvignon, Sauvignon Blanc e País. A Wines of Chile destaca os vales de Colchagua e Cachapoal, e o Maipo também tem Carmenère de nome.

Nos outros países da casa, é raridade. Na Argentina, o INV contava 51 hectares em 2024. No Brasil, um levantamento da Embrapa na Campanha Gaúcha achou menos de meio hectare em 2015. Em Portugal, ela fica fora da lista de castas mais plantadas do IVV. Curiosidade: a China também tem Carmenère; a OIV contava 8 mil hectares por lá em 2015, contra 11 mil no Chile.

Os outros nomes dela

Primeiro, a grafia: Carmenère, com um acento, e Carménère, com dois, aparecem em fonte oficial. O SAG chileno escreve Carmenère; a Wines of Chile, que promove o vinho chileno no exterior, prefere Carménère; o VIVC, que não usa acento, grava CARMENERE. Pode escrever de qualquer jeito.

Entre os sinônimos do VIVC estão Grande Vidure (o SAG ainda registra a uva como “Carmenère – Grande Vidure”), Carbonet, Cabernelle e Cabernet Gernischt. E, no Chile, por décadas, o nome dela foi simplesmente Merlot.

Pra começar: Carmenère por faixa de preço

A faixa de preço que a casa viu nas lojas grandes, no mês ao lado. O preço muda; a faixa costuma ficar.

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Os mais bem avaliados com Carmenère

Nota média de quem bebeu (X-Wines), de 1 a 5. Toque pra ver a ficha.

Ver os 66 rótulos com Carmenère na busca →

Carmenère é a uva que voltou do sumiço com outro nome no crachá. Abre um, procura o pimentão no copo e decide: você é do time do verde ou do time da fruta?

Fontes desta página

  • VIVC — Carmenere, passaporte nº 2109 — www.vivc.de
  • Decanter China — entrevista com Jean-Michel Boursiquot (Julien Boulard MW, 2016) — www.decanterchina.com
  • SAG (Chile) — Catastro Vitícola 2024, informe executivo — www.sag.gob.cl
  • Belancic e Agosin (2007) — Methoxypyrazines in Grapes and Wines of Vitis vinifera cv. Carmenere, AJEV — www.ajevonline.org
  • UC Davis — resumo de Boursiquot et al. 2009, Parentage of Merlot and related winegrape cultivars — wineserver.ucdavis.edu
  • OIV — Distribution of the world's grapevine varieties (Focus 2017) — www.oiv.int
  • Wines of Chile — Wine Regions Map — www.winesofchile.org
  • INV — Superficie con viñedos 2024 (datos.magyp.gob.ar) — datos.magyp.gob.ar
  • Embrapa — Campanha Gaúcha: indicação geográfica de vinhos (Tabela 8.3, 2015) — www.infoteca.cnptia.embrapa.br
  • IVV — Castas mais utilizadas no Continente, 2025 — www.ivv.gov.pt
  • Rótulos, notas, uvas e regiões da lista da casa: X-Wines, base científica aberta (de Azambuja, R. X. et al., 2023), conferida pela casa — github.com

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