As castas da casa · branca
Viognier: a branca de damasco que quase desapareceu
Viognier é uma casta branca que dá vinho perfumado, com aroma a damasco, pêssego e flor, corpo cheio e uma acidez que tende a ser baixa. Nasceu no norte do Vale do Rhône, em França, e quase desapareceu: em 1965 restavam uns 8 hectares dela no mundo. Hoje está da Austrália à Califórnia, e tem até um cantinho na Campanha Gaúcha.
De onde vem
A Viognier é francesa. No VIVC, o catálogo internacional de castas, o nome oficial é Viognier, casta branca com origem em França; os pais dela ainda não foram identificados. A casa é o norte do Vale do Rhône, nas encostas íngremes de Condrieu. O caderno de especificações da denominação conta que ela já aparece num livro de 1781 sobre a província do Dauphiné, que dizia que os grandes vinhos da região eram feitos de duas castas só: a Serine, um nome antigo da Syrah, e a Vionnier.
É uma casta caprichosa, segundo o mesmo caderno oficial: produz de forma irregular e amadurece mais tarde. Em compensação, atinge naturalmente muito açúcar. Em Condrieu, vive no limite do que aguenta, em encostas bem viradas ao sol e protegidas do vento frio do norte, num solo ácido de que gosta. É esse lugar difícil que, segundo o caderno, tira dela o melhor e ainda segura um fio de frescura no vinho.
Como é no copo
Cor dourada e aroma intenso a fruta madura. O caderno de Condrieu descreve pêssego e, sobretudo, damasco, às vezes violeta e flor branca, e uma boca potente, gorda e macia, que não pesa porque tem uma boa vivacidade por trás. Um estudo da Universidade de Adelaide, na Austrália, liga esse perfume de fruta de caroço a substâncias aromáticas como o linalol e o geraniol.
O ponto delicado é a acidez. O mesmo estudo descreve a Viognier como casta de clima quente, com tendência a perder acidez e a acumular açúcar a mais. O sabor completo só chega com a uva bem madura, e aí o vinho pode sair alcoólico e sem frescura. Por isso um Viognier bem feito parece cremoso e perfumado, e um mal resolvido parece pesado. Na dúvida, sirva-o bem fresco e repare na textura macia, quase de creme.
Com que combina
Corpo cheio e muito perfume pedem comida de sabor marcado, sem acidez a mais no prato. Vai bem com frango de caril, moqueca baiana, bobó de camarão, peixe com molho de manteiga, risotto de abóbora e comida tailandesa sem exagerar no picante. Também casa com queijo de pasta mole, como um brie, e com o frango assado de domingo. Tudo sugestão: se gostou de outro par, vá por outro par.
Onde brilha hoje
Em Condrieu, a regra da denominação diz que o vinho sai só de Viognier, e só branco sem gás. Mesmo ao lado fica Château-Grillet, uma das menores denominações de França, com menos de 3,5 hectares em produção, também 100% Viognier. Ali perto, na Côte-Rôtie, que é terra de tinto, a Viognier entra como tempero da Syrah: até 20% das plantas, e as duas castas vão juntas para a cuba, na mesma proporção.
Fora de França, a Austrália tinha 765 hectares no recenseamento de 2015 e a maior parte da colheita de hoje sai do Riverland e da Riverina, segundo a Wine Australia; lá também aparece em lote com Marsanne e Roussanne. Na Califórnia, o levantamento oficial de 2025 contou uns 2.400 acres, cerca de 970 hectares. No Brasil, a Campanha Gaúcha tinha quase 19 hectares em 2015 e inclui-a entre as castas autorizadas da sua Indicação de Procedência.
Os outros nomes dela
O VIVC regista poucos sinónimos, só 14, quase todos variações do próprio nome: Vionnier, Viogner, Petit Viognier, Viognier Blanc, Viognier Jaune. O mais diferente é Galopine. Na prática, o rótulo diz Viognier em qualquer canto do mundo, e o caderno de Condrieu ainda lembra a forma antiga, vionnier. É uma lista curtinha para uma casta de séculos, que passou boa parte da vida quase só num pedaço pequeno do Rhône.
Oito hectares no mundo
No século XX, a Viognier esteve por um fio. Segundo o caderno oficial de Condrieu, a filoxera (praga que arrasou as vinhas europeias no século XIX), a Primeira Guerra e a chegada das indústrias ao Vale do Rhône esvaziaram as encostas, que davam muito trabalho. Em 1965 restavam uns 8 hectares de Viognier, na região e no mundo. Foi dessas vinhas que partiu a replantação: em 2010, Condrieu já passava dos 140 hectares.
Depois, o mundo descobriu a casta. O estudo de Adelaide conta que ela cobria só uns 30 hectares em meados dos anos 1980, saltou para 3.160 hectares em 2003 e chegou perto de 12 mil em 2015. Pormenor curioso do caderno de Condrieu: em meados do século XIX, o vinho de lá era doce e bebido seis meses depois de pronto; hoje sai quase sempre seco, com uma pequena produção de doce, feita de uva colhida sobremadura.
Os mais bem avaliados com Viognier
Nota média de quem bebeu (X-Wines), de 1 a 5. Toque para ver a ficha.
- The Standish The Relic Shiraz-Viogniernota ★ 4,6
- Sadie Family Palladiusnota ★ 4,6
- Domaine Yves Gangloff Condrieunota ★ 4,5
- Domaine Georges Vernay Coteau de Vernon Condrieunota ★ 4,5
- Domaine Georges Vernay Les Chaillées de L'Enfer Condrieunota ★ 4,5
- Domaine Rostaing Côte-Rôtie Côte Blondenota ★ 4,4
- Château-Grillet Blancnota ★ 4,4
- Clonakilla Shiraz-Viogniernota ★ 4,4
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