As castas da casa · tinta
Primitivo e Zinfandel: uma casta dos Balcãs com dois passaportes
Primitivo é uma casta tinta de cor intensa, fruta bem madura e álcool generoso, a estrela da Puglia, o salto da bota italiana. Na Califórnia, a mesma casta chama-se Zinfandel. O teste de ADN mostrou que as duas são uma só, e que a família dela vem do outro lado do Mar Adriático, da Croácia. Se já bebeu um tinto italiano macio e cheio de fruta, pode ter sido ela.
De onde vem
No VIVC, o catálogo internacional de castas, o nome principal é Primitivo, e a origem registada são os Balcãs. Quem resolveu o mistério foi a geneticista Carole Meredith, da Universidade da Califórnia em Davis. Em 1998, ela e dois investigadores da Universidade de Zagreb, Ivan Pejic e Edi Maletic, percorreram vinhas da costa da Dalmácia. Em dezembro de 2001, o ADN bateu certo: Zinfandel e uma casta croata antiga chamada Crljenak são a mesma planta.
Nas palavras de Meredith, aquilo a que os americanos chamam Zinfandel e os italianos Primitivo é a Crljenak Kaštelanski. O centro de vinhas da UC Davis regista que a casta já era cultivada na Croácia no início do século XV, com o nome de Tribidrag. Uma das teorias é que atravessou o Adriático até à Puglia no século XVIII. E Meredith deixou a porta aberta: pode ser que a casta tenha chegado à Croácia vinda da Grécia ou da Albânia.
Como é no copo
A regra da denominação Primitivo di Manduria descreve um tinto de cor intensa, que puxa para o granada com o tempo, acidez média, aroma amplo e sabor que vai do seco ao levemente adocicado, aveludado. Na prática, é fruta bem madura, macieza e corpo cheio. O álcool nota-se: o Primitivo di Manduria pede no mínimo 13,5% no vinho pronto, e o Riserva, 14%.
O feitio da planta explica a doçura da fruta. A ficha oficial italiana conta que o Primitivo dá duas colheitas por ano, às vezes três: a primeira amadurece no fim de agosto nos sítios mais quentes, mais rica em açúcar e mais pobre em acidez; a segunda nasce nos rebentos laterais e fica pronta na segunda metade de setembro. Com tanto açúcar, a Zinfandel colhida tarde chega a dar vinho de sobremesa ao estilo do Porto, segundo a UC Davis.
Com que combina
Fruta madura e álcool alto pedem comida com molho e tempero. O Primitivo vai bem com lasanha à bolonhesa, massa com ragu de linguiça, beringela à parmegiana, pizza de chouriço e costela assada. O Zinfandel californiano adora churrasco com molho barbecue, hambúrguer com cheddar e entrecosto de porco. Os Primitivo doces fazem par com queijo azul e chocolate negro. Tudo sugestão: se gostou de outro par, vá por outro par.
Onde brilha hoje
Em Itália, a casa dela é a Puglia. A denominação Primitivo di Manduria, perto de Taranto, pede no mínimo 85% da casta, e o registo oficial italiano lista outras denominações onde ela entra, como Gioia del Colle e Terra d'Otranto. A versão doce passou a DOCG em 2011, a Primitivo di Manduria Dolce Naturale: 100% Primitivo, uvas que podem passificar na videira ou em esteiras, no mínimo 16% de álcool total (o que já é álcool somado ao que o açúcar ainda daria) e pelo menos 50 gramas de açúcar por litro.
Nos Estados Unidos eram 19 mil hectares de Zinfandel em 2015, pelas contas da OIV. Na Califórnia, em 2017, era a quarta casta de vinho em área, segundo a UC Davis, com as maiores plantações no condado de San Joaquin e em Sonoma. Lodi, no condado de San Joaquin, tem mais de 16 mil acres, mais de 42% da Zinfandel do estado, e a maior parte em vinhas com mais de 50 anos.
A Califórnia também transformou a casta num fenómeno de vendas: em meados dos anos 1980, o White Zinfandel, um rosado levemente adocicado, tornou-se uma febre, conta a comissão de uvas de Lodi. Bem diferente do tinto encorpado da Puglia, mostra como a maneira de fazer muda a cara da mesma casta. A UC Davis descreve esse Zinfandel branco ou rosado como um vinho popular, com mais açúcar e menos álcool do que o tinto. Mesma casta, outro mundo.
Os outros nomes dela
O VIVC lista 64 sinónimos. Em Itália, o registo oficial de variedades põe Zinfandel como sinónimo oficial do Primitivo, e guarda nomes locais como Primaticcio, Primativo, Morellone e Uva di Corato. Na Croácia, aparece como Tribidrag e Crljenak Kaštelanski, e no catálogo há ainda Kratosija e Pribidrag. No rótulo, o mais comum é Primitivo em Itália e Zinfandel nos Estados Unidos.
O padre que batizou a casta temporã
A regra do Primitivo di Manduria Dolce Naturale conta a história do nome. Em Gioia del Colle, perto de Bari, o padre e botânico Francesco Filippo Indellicati (1787–1831) reparou na casta numa vinha antiga e misturada. Rebatizou-a como Primativo ou Primaticcio por causa do amadurecimento precoce, e plantou uma vinha só dela. A UC Davis lembra a raiz latina: primus, primeiro. A ficha oficial confirma a pressa: colheita entre o fim de agosto e o início de setembro.
Do outro lado do oceano, a Zinfandel chegou primeiro como uva de mesa. A origem dela nos Estados Unidos é incerta, mas a pista mais provável, segundo a UC Davis, é um horticultor amador chamado George Gibbs, que levou a casta para Long Island, Nova Iorque, nos anos 1820; no início do século XIX era cultivada em estufas na costa leste. A chegada à Califórnia foi provavelmente na época da corrida ao ouro. Só com o ADN, quase dois séculos depois, as duas pontas da história se encontraram.
Os mais bem avaliados com Primitivo e Zinfandel
Nota média de quem bebeu (X-Wines), de 1 a 5. Toque para ver a ficha.
- Terre di San Vincenzo Dal 1947 Primitivo di Mandurianota ★ 4,6
- Gianfranco Fino Es Primitivo di Mandurianota ★ 4,6
- Varvaglione Cosimo Varvaglione Collezione Privata Primitivo di Mandurianota ★ 4,6
- Terra Rossa Vigne Vecchie Primitivo di Mandurianota ★ 4,6
- Schola Sarmenti Diciotto Primitivonota ★ 4,5
- Inglenook Edizione Pennino Zinfandelnota ★ 4,5
- Tobin James Cellars Zinfandel Fat Boynota ★ 4,5
- Del Dotto Cave Blendnota ★ 4,5
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