As castas da casa · branca
Pinot Grigio: a casta cinzenta de dois sotaques
Pinot Grigio é uma casta de película cinza-rosada que nasceu de uma mutação da Pinot Noir. Em italiano chama-se Pinot Grigio; em francês, Pinot Gris. É a mesma casta, mas os dois nomes tornaram-se duas maneiras de fazer vinho: a italiana, fresca e fácil, para beber bem fria; e a alsaciana, mais cheia, com aroma a fruta seca e um toque fumado. Aquele branco italiano da mesa ao lado na pizzaria era, provavelmente, um deles.
De onde vem
A Pinot Grigio é francesa e é da família Pinot. No VIVC, o catálogo internacional de castas, o nome oficial dela é Pinot Gris, com origem em França e a cor da película registada como cinzenta, nem branca nem tinta. O catálogo regista a origem como uma mutação da Pinot Noir, o mesmo caminho da Pinot Blanc. Ou seja: Noir, Gris e Blanc são praticamente a mesma planta, que mudou a cor da película.
O consórcio de vinhos do Alto Ádige, no norte de Itália, explica o truque: a película tem camadas de células geneticamente diferentes, umas por cima das outras. Por isso a cor é instável, e de vez em quando aparece um cacho, ou só um bago, azul ou branco no meio da vinha. No Alto Ádige, a primeira plantação registada foi em 1848, em Eppan, e no início era plantada misturada com a Pinot Blanc.
Como é no copo
Depende de onde vem. No estilo italiano, a regra da denominação Delle Venezie descreve um vinho de cor palha a dourada, aroma frutado e por vezes floral, sabor fresco e harmonioso, do seco ao ligeiramente adocicado, com um mínimo de 11% de álcool. É o branco dos dias quentes, para beber jovem e bem frio. Na Campanha Gaúcha, a Embrapa resume o aroma do Pinot Grigio varietal numa palavra: pera.
Na Alsácia, a mesma casta dá outro vinho. O CIVA, o comité dos vinhos de lá, fala de cor amarelo-dourada, aroma fumado, fruta seca, damasco, mel e cera de abelha, e uma boca ampla e carnuda, sustentada por uma acidez que segura o conjunto. No Alto Ádige, os vinhos do fundo do vale lembram maçã madura, pera e marmelo; os das encostas mais altas puxam para o limão e para o pêssego branco, com acidez mais presente.
Com que combina
O italiano, fresco, é um trunfo do dia a dia: salada, bruschetta, peixe grelhado, camarão ao alho, risotto de limão, sushi e pizza margherita. O alsaciano, mais encorpado, enfrenta pratos com personalidade: o CIVA sugere foie gras, porco assado, pato, cogumelos e queijos curados. Na mesa brasileira, vai bem com lombo de porco, frango com cogumelos, risotto de funghi e queijo canastra. Tudo sugestão: se gostou de outro par, vá por outro par.
Onde brilha hoje
A Itália é a maior casa dela: 25 mil hectares em 2015, segundo a OIV, a organização internacional do vinho, e uma das duas únicas castas que cresceram em área no país de 2000 a 2015. Quase tudo fica no nordeste, na denominação Delle Venezie, que junta o Véneto, o Friuli Venezia Giulia e a província de Trento. O consórcio fala hoje de 27 mil hectares, cerca de 230 milhões de garrafas por ano e 85% do Pinot Grigio italiano.
Mais a norte, no Alto Ádige, é a branca mais plantada há mais de três décadas, com 715 hectares, segundo o consórcio local. Na Alemanha, com o nome de Grauburgunder, eram 8.404 hectares em 2024, a terceira branca do país. Em França, quase toda a área fica na Alsácia. No Oregon, nos Estados Unidos, era a segunda casta mais plantada em 2018. No Brasil, aparece na Campanha Gaúcha, entre as castas autorizadas da Indicação de Procedência.
Os outros nomes dela
No VIVC, o nome oficial é Pinot Gris, e a lista de sinónimos tem 249 nomes. Os que mais aparecem são Pinot Grigio, como a Itália escreve, e Pinot Gris, como a França escreve. Na Alemanha, Grauer Burgunder ou Ruländer; na Hungria, Szürkebarát, que quer dizer monge cinzento. No Alto Ádige, a tradição é escrever Ruländer: o consórcio conta que o nome vem de um comerciante de Speyer chamado Ruland, que terá espalhado a casta no século XVIII.
O Tokay que nunca foi Tokay
A Alsácia chamou Tokay a esta casta durante mais de um século. A lenda, contada pelo CIVA, diz que por volta de 1565 um barão, Lazare de Schwendi, trouxe estacas da cidade de Tokaj, na Hungria, famosa pelo vinho de lá. Só que o vinho húngaro é feito de Furmint, e os ampelógrafos acham mais provável que a casta plantada na Alsácia fosse a Pinot Gris da Borgonha. O nome foi mudando: Grauer Tokayer, Tokay d'Alsace, Tokay Pinot Gris e, desde 1 de abril de 2007, só Pinot Gris.
Em Itália, a película cinza-rosada deu origem a outra tradição: o ramato, palavra que quer dizer cor de cobre. A regra da denominação Delle Venezie conta que os termos ramato, mais usado no Friuli, e rosato, no Véneto e em Trento, já aparecem em escritos da época da República de Veneza. Pela regra da denominação, na versão publicada em 2021, o rótulo pode trazer Pinot Grigio ramato ou rosato, incluindo nas versões frisante e espumante, para quem prefere o vinho com aquele tom acobreado.
Os mais bem avaliados com Pinot Grigio
Nota média de quem bebeu (X-Wines), de 1 a 5. Toque para ver a ficha.
- Von Winning Ungeheuer GGnota ★ 4,3
- Au Bon Climat Hildegardnota ★ 4,3
- Vie di Romans Dessimis Pinot Grigionota ★ 4,3
- St. Michael-Eppan Sanct Valentin Pinot Grigionota ★ 4,3
- Domaine Zind Humbrecht Pinot Gris Alsace Clos Windsbuhlnota ★ 4,2
- Tenuta Valleselle Arnasi Pinot Grigionota ★ 4,2
- Gustave Lorentz Pinot Gris Alsace Grand Cru Altenberg De Bergheimnota ★ 4,2
- Cartuxa Scala Coeli Branconota ★ 4,2
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