As castas da casa · tinta
Barbera: o tinto de todos os dias do Piemonte
Barbera é a casta tinta mais plantada do Piemonte, no norte de Itália. Dá um vinho de cor funda, fruta vermelha madura e acidez alta, com pouco tanino, aquele aperto na gengiva. Por isso desce com facilidade e vai bem com quase tudo o que leva molho de tomate. É um vinho ligado às antigas tradições do campo, e hoje também tem versão para guardar.
De onde vem
A Barbera é italiana. No VIVC, o catálogo internacional de castas, o nome principal dela é Barbera Nera, tinta, com origem em Itália. O teste de ADN encontrou um dos pais, a Coccalona Nera, uma casta antiga do Piemonte que hoje quase ninguém planta. O outro progenitor continua desconhecido, e no passaporte aparece só um ponto de interrogação. Ou seja: metade da família dela já tem nome.
O consórcio que cuida dos vinhos das Langhe diz que ela vem das terras do antigo Marquesado e depois Ducado de Monferrato. O primeiro registo escrito é de 1512, num documento de cadastro de terras da comuna de Chieri, perto de Turim, segundo o consórcio do Barbera d'Asti. Em 1798 entrou na primeira ampelografia do Piemonte, escrita pelo conde Nuvolone.
Como é no copo
O consórcio do Barbera d'Asti resume a casta em três traços: acidez alta, muita cor e pouco tanino. Na prática, o vinho tem cor rubi escura, quase roxa quando jovem, aroma a fruta vermelha madura, como cereja e ameixa, e um gole fresco que faz salivar. Como o tanino é baixo, não aperta a boca como um Nebbiolo ou um Cabernet.
Há duas maneiras de o fazer. Fermentado e guardado em inox, sai mais fresco e direto, para beber logo. Com passagem por barrica ou tonel de madeira, ganha corpo e notas de baunilha e especiaria, e torna-se um vinho que aguenta alguns anos na garrafa. O consórcio lembra que a casta vai do tinto jovem, às vezes até frisante, ao vinho de guarda.
Com que combina
Acidez alta e tanino baixo fazem da Barbera um tinto para a comida do dia a dia. Pizza de qualquer sabor, massa ao sugo, lasanha, gnocchi com molho de tomate, frango com polenta e galinhada. A acidez corta a gordura do salame, da mortadela e do queijo, por isso aguenta bem uma tábua de charcutaria. As versões com madeira enfrentam carne assada, almôndegas e entrecosto. Por ser pouco tânica, aguenta até ser servida um pouco mais fresca no verão. É sugestão: se gostou com outra coisa, vale o seu gosto.
Onde brilha hoje
No Piemonte, é a casta tinta mais difundida, e o coração dela fica nas províncias de Asti e Alessandria. O Barbera d'Asti, que se tornou DOC em 1970 e DOCG em 2008, leva no mínimo 90% de Barbera; o Superiore envelhece pelo menos 14 meses, 6 deles em madeira. O Barbera d'Alba usa de 85% a 100% de Barbera e pode ter até 15% de Nebbiolo. O Nizza, que nasceu como subzona do Barbera d'Asti, é hoje DOCG própria e é feito só com Barbera.
Fora do Piemonte, tem peso noutras regiões de Itália, como a Lombardia (no Oltrepò Pavese), a Emília-Romanha, a Úmbria, a Campânia e a Sicília. Do outro lado do oceano, aparece na Califórnia e na América do Sul. No Brasil, o cadastro da Embrapa contava menos de 7 hectares de Barbera no Rio Grande do Sul em 2012. Em Itália, é coisa de todos os dias; no Brasil, ainda é um achado.
Os outros nomes dela
Ao contrário de muitas castas famosas, a Barbera quase não tem alcunhas. O registo oficial de castas de Itália diz que ela não tem sinónimos verdadeiros: os nomes que circulam são o próprio nome com um adjetivo, como Barbera Grossa, Barbera Fina, Barbera d'Asti ou Barberone. O VIVC regista 35 sinónimos, quase todos deste tipo, e usa Barbera Nera como nome principal. No rótulo, vai ler só Barbera.
A parente que quase desapareceu
A mãe ou o pai conhecido da Barbera é a Coccalona Nera, uma casta tão esquecida que os investigadores encontraram a planta no sudeste do Piemonte sem nome e tiveram de a comparar com descrições antigas para a identificar. O estudo de ADN de 2020 conclui que a Coccalona deve ter sido muito plantada no passado, provavelmente em vinho de mistura comum, e por isso quase não deixou rasto nos livros.
O mesmo estudo encontrou outra filha da Coccalona: a Welschriesling, casta branca conhecida como Riesling Italico em Itália e Graševina nos Balcãs. Barbera e Welschriesling não devem ser irmãs inteiras, mas provavelmente são meias-irmãs, com a Coccalona como progenitora em comum. Ou seja: a tinta mais plantada do Piemonte tem uma parente branca espalhada pela Europa Central, e a ligação entre as duas só apareceu com o ADN.
Os mais bem avaliados com Barbera
Nota média de quem bebeu (X-Wines), de 1 a 5. Toque para ver a ficha.
- Waterford Estate The Jemnota ★ 4,7
- Guerrieri Rizzardi Calcarole Amarone della Valpolicella Classiconota ★ 4,6
- Giacomo Conterno Barbera d'Alba Vigna Francianota ★ 4,4
- Scarpa La Bogliona Barbera d'Astinota ★ 4,4
- Braida Ai Suma Barbera d'Astinota ★ 4,4
- Braida Bricco dell'Uccellone Barbera d'Astinota ★ 4,4
- Coppo Pomorosso Barbera d'Astinota ★ 4,4
- Guerrieri Rizzardi Amarone della Valpolicella Classico Villa Rizzardinota ★ 4,4
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