Viagens · Roteiro N.º 9
São Roque: a estrada do vinho ao lado de São Paulo
A uns 60 km da capital paulista, São Roque faz vinho há um século e nunca pediu licença para isso. Tem adega de família, garrafão, Cabernet Franc colhido no inverno e, em outubro, alcachofra na mesa. Dá para ir e voltar no mesmo dia.
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Porque é que aqui há vinho
A uva chegou com os imigrantes italianos e portugueses, e o vinho tornou-se o negócio da cidade. Nos anos 1920 as famílias plantavam Isabel e Niágara, uvas americanas que aguentam o clima paulista, e mandavam o vinho de comboio, em barris de 100 litros, para o litoral. Entre os anos 1950 e 1970 São Roque viveu a fase de ouro: a XV de Novembro conta que a cidade chegou a ter mais de duzentas marcas, e uma lei estadual de 1949 já tinha oficializado a Festa do Vinho, juntamente com a Festa da Uva de Jundiaí.
Depois veio a queda. Nos anos 1960 eram 158 produtores; a cidade cresceu por cima das vinhas e o vinho daqui perdeu a guerra do preço. A viragem veio com o turismo: São Roque é Estância Turística desde 1990, e as adegas que ficaram trocaram o volume pela visita, com restaurante, loja e, cada vez mais, vinho fino.
O que há no copo
Dois mundos, lado a lado na mesma estrada:
- O vinho de casa da avó: o vinho de mesa de Isabel, Bordô e Niágara, tinto adocicado ou seco, rosé, branco. Foi o que deu fama à cidade e ainda se vende em garrafão. Sem vergonha nenhuma: gostou, pode.
- O vinho fino de inverno: com a dupla poda, a mesma técnica do Sul de Minas, a colheita sai do verão chuvoso e passa para o inverno seco, entre junho e agosto. A Góes planta Cabernet Franc e Cabernet Sauvignon em espaldeira em São Roque, e a Philosophia apresenta-se como pioneira desta vindima de inverno por cá. Entra também a Lorena, casta branca criada pela Embrapa.
O mapa da estrada
O Roteiro do Vinho não é um parque com portão: são três estradas (a Estrada do Vinho, a dos Venâncios e a Rodovia Quintino de Lima) com adegas, restaurantes e pousadas dos dois lados. Não há itinerário fixo nem marcação geral. A maioria das casas não cobra entrada, e a prova simples, ao balcão, costuma ser gratuita; a prova guiada é paga.
- Góes (Estrada do Vinho, km 9): com restaurante, loja e o passeio de comboio turístico pelas vinhas. É a casa da linha de vinhos finos feitos com uva de São Roque.
- Philosophia (Rodovia Quintino de Lima): a casa do Cabernet Franc de inverno, com visita guiada e provas curtas.
- XV de Novembro (à altura do km 4,5 da Estrada do Vinho): de 1958, aberta todos os dias; a linha Quinta Moraes é a dos finos.
- Canguera (Estrada do Vinho, km 8): de 1952, com restaurante ao lado.
- Casa da Árvore (Rodovia Quintino de Lima, km 1,5): vinha própria e espumante, com experiências só por marcação.
Quando ir
- Outubro: época da alcachofra, a outra estrela da cidade. Em 2026 o Festival da Alcachofra, Vinho & Mel decorre de 9 de outubro a 2 de novembro, em quatro fins de semana prolongados, das 10h às 19h, com entrada gratuita, na própria Estrada do Vinho.
- Janeiro e fevereiro: a vindima tradicional, das uvas de mesa. A Góes abre a sua aos visitantes.
- Junho a agosto: a colheita de inverno do vinho fino e o Festival de Inverno da cidade, com concertos gratuitos na Brasital, em julho. Noite fria pede tinto.
- Qualquer fim de semana: é quando a estrada enche. Quem puder ir num dia de semana anda mais depressa e conversa mais com quem faz o vinho; confirme antes, porque nem todas as casas abrem.
Quanto custa
É o roteiro mais em conta da casa. A prova ao balcão é gratuita na maioria das adegas. Pelos valores publicados em outubro de 2026: na Philosophia, as provas curtas custam de R$ 35 a R$ 70 e a visita guiada, R$ 180 por pessoa; na Góes, a prova orientada e o comboio pelas vinhas começam nos R$ 85 a R$ 90, e a prova harmonizada, de duas horas, nos R$ 235. O resto é o almoço e o que couber na bagageira.
Conselhos de quem já fez a estrada
- Vá de autocarro e todos provam. Há autocarros da Barra Funda (São Paulo) para São Roque umas sete vezes por dia, em cerca de 1h40. De carro, vai-se pela Castello Branco ou pela Raposo Tavares; a estrada do vinho em si pede carro (ou TVDE) entre uma casa e outra.
- Escolha três casas, não oito. As adegas ficam perto umas das outras e a tentação é parar em todas. Mais vale uma prova guiada, um almoço demorado e uma loja.
- Um copo de água entre um copo de vinho e outro. A prova ao balcão engana, porque é um gole aqui, outro ali. Se passar da conta, o SOS da casa ajuda.
- Fique para ver a cidade. A Brasital, fábrica de tecidos de 1890 transformada em centro cultural; o Sítio e Capela de Santo Antônio, de 1681, que o escritor Mário de Andrade doou ao património; e, para quem gosta de caminhar, o Morro do Saboó, o ponto mais alto da cidade, perto dos 1.000 m.
- Volte com alcachofra. E com um garrafão, se quiser: é uma recordação que se usa.
Adegas para conhecer
Critério declarado: casas com visitas e site oficial, por ordem alfabética, porque uma lista aqui não é um ranking. Nenhuma pagou para estar aqui; valores e horários mudam, confirme antes de ir. O guia do Roteiro do Vinho traz as outras casas da estrada.