Guia Sem Frescura · N.º 18
Espumante doce: Moscatel, Asti, Moscato d’Asti e Brachetto (e a régua do açúcar)
Os espumantes doces a sério são o Moscatel brasileiro, o Asti italiano e o Brachetto, que é tinto; e há o primo frisante, o Moscato d’Asti. E na régua do açúcar esconde-se a rasteira: brut é seco; demi-sec e doce são os doces; e o “extra dry”, na Europa, é mais doce do que o brut.
A régua do açúcar, em gramas por litro
A palavra no rótulo diz quanto açúcar sobrou. No Brasil, a régua estava num decreto de 2014, revogado em 2025; o mercado continua a seguir os mesmos números (o guia seco ou suave conta a história). Na Europa, a régua vem de um regulamento de 2019, e é um pouco diferente:
| No rótulo | Brasil (régua de 2014) | União Europeia |
|---|---|---|
| Nature | até 3 | menos de 3 |
| Extra brut | 3 a 8 | 0 a 6 |
| Brut | 8 a 15 | menos de 12 |
| Extra dry | não existe | 12 a 17 |
| Seco (sec, dry) | 15 a 20 | 17 a 32 |
| Demi-sec | 20 a 60 | 32 a 50 |
| Doce (doux) | mais de 60 | mais de 50 |
Por isso o “extra dry” confunde: o nome diz seco, mas na régua europeia tem mais açúcar do que o brut. E na Europa o rótulo pode errar no máximo 3 g/L, para mais ou para menos.
Moscatel, o doce do Brasil
O espumante comum ganha o gás numa segunda fermentação do vinho. O Moscatel espumante é diferente, pela lei brasileira: o gás vem da fermentação do próprio mosto de uva moscatel, em recipiente fechado, com pelo menos 4 atmosferas, de 7 a 10% de álcool e pelo menos 20 g/L de açúcar. A Embrapa explica como: o mosto fermenta na autoclave, que a certa altura é fechada para prender o gás, e, quando chega ao ponto, a fermentação é parada com frio e filtração; sobram uns 65 a 75 g/L do açúcar da própria uva. Por ser doce e de pouco álcool, é para beber novo, de preferência no ano em que foi feito.
Farroupilha, na Serra Gaúcha, tem indicação de procedência só para os moscatéis: oito castas autorizadas, com pelo menos 85% das uvas da região. A Embrapa sugere servir bem fresco, de 4 a 6 °C, com fruta, mousse de maracujá ou gelado.
Asti e Moscato d’Asti, do Piemonte
Os dois são da mesma denominação, no norte de Itália, e feitos só de Moscato Bianco. O Moscato d’Asti é frisante, de borbulha suave (até 2,5 bar), e tem só 4,5 a 6,5% de álcool no copo: o resto do açúcar da uva fica lá. Um produtor da região descreve a fermentação lenta, parada perto dos 5% de álcool, e sugere servir a 10 °C com sobremesa de fruta. O Asti é o espumante, com pelo menos 6% de álcool. Atenção: desde que as regras mudaram, o Asti pode ir do “pas dosé” ao doce. Veja a palavra no rótulo.
Brachetto d’Acqui, o doce tinto
Também do Piemonte, feito da casta tinta aromática Brachetto, quase sempre em cuba fechada (o método Charmat). Um exemplo, pela ficha do produtor: 7,3% de álcool, 110 g/L de açúcar, servido a 8 ou 10 °C, com morangos e tarte de fruta.
E o Lambrusco?
Quando é frisante, segue outra régua europeia, a dos vinhos não espumantes: amabile é meio doce, até 45 g/L; dolce, acima disso. Na prateleira, a palavra amabile já diz que é docinho.
Com o quê
A regra do WSET para a sobremesa é doce com doce: o vinho tem de ser mais doce do que o prato, senão parece mais seco, amargo e sem fruta. A fruta e as sobremesas de fruta aparecem nas sugestões dos produtores e da Embrapa. E doce não é defeito: gostou? Pode, e ainda bem que descobriu do que gosta.
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