As uvas da casa · tinta
Sangiovese: a uva que manda na Toscana
Sangiovese é a uva tinta que manda na Toscana. É dela o Chianti, o Brunello di Montalcino e o Vino Nobile di Montepulciano. Dá um vinho de cor rubi, cheiro de cereja e um gole que enche a boca d'água, com acidez viva e aquele aperto do tanino. Se você já tomou um tinto italiano com a pizza, há uma boa chance de ter sido ela.
De onde vem
A Sangiovese é italiana. No VIVC, o catálogo internacional de uvas, o nome principal dela é Sangiovese mesmo, tinta, com origem na Itália. Quem são os pais ainda é assunto aberto: o catálogo registra mais de uma hipótese tirada de testes de DNA e avisa que falta análise pra bater o martelo. O que o DNA já mostrou é que ela tem filhos, ou seja, entrou na família de outras uvas italianas.
O registro oficial de uvas da Itália, mantido pelo Ministério da Agricultura, separa a Sangiovese em dois grupos de tipos: o de bago grande (Sangiovese grosso) e o de bago pequeno (Sangiovese piccolo). Os nomes locais Brunello, de Montalcino, e Prugnolo Gentile, de Montepulciano, aparecem ligados ao grupo de bago grande. É a mesma uva, com pequenas variações de cacho e de bago que cada lugar foi selecionando ao longo dos séculos.
Como é no copo
Cor rubi, que com o tempo vai pro granada, um vermelho puxado pro tijolo. No nariz, fruta vermelha, sobretudo cereja. Em Montepulciano, na Toscana, os estudos de solo citados na regra do Vino Nobile apontam três marcas da uva por lá: cereja ácida (a amarena dos italianos), violeta e especiaria. Com passagem por barrica, o vinho ganha notas de madeira e fica mais macio.
Na boca, a Sangiovese é viva. A acidez (aquele frescor que faz salivar) é a marca dela, e o tanino, o aperto na gengiva, aparece firme. A regra do Brunello descreve o vinho como seco, quente e um pouco tânico. É um tinto que pede comida do lado: sozinho pode parecer duro, à mesa ele se encaixa. Por isso ele costuma render mais no jantar do que no aperitivo.
Com o que combina
A Sangiovese nasceu pra mesa italiana, e a mesa brasileira herdou boa parte dela. Pizza de muçarela ou de calabresa, macarronada de domingo com molho de tomate, lasanha à bolonhesa, bife à parmegiana, polpetone e frango assado. A acidez da uva conversa com a do tomate, e o tanino limpa a boca da gordura do queijo. Os mais encorpados, como um Brunello, vão bem com carne de panela, cordeiro, cogumelos e queijo curado. É sugestão: se você gostou com outra coisa, vale o seu gosto.
Onde ela brilha hoje
Na Toscana, ela é a base de quase tudo. O Chianti Classico leva no mínimo 80% de Sangiovese; o Chianti, de 70% a 100%; o Vino Nobile di Montepulciano, no mínimo 70%; o Morellino di Scansano, no mínimo 85%. O Brunello di Montalcino e o Rosso di Montalcino são feitos só com ela. Na Romagna, do outro lado dos Apeninos, o Romagna Sangiovese pede pelo menos 85% da uva.
Fora da Itália, a Sangiovese aparece em quantidade bem menor. Os dados de área do VIVC, que são antigos, registram vinhedos dela na Argentina, na França, na Austrália, no Chile e na África do Sul. No Brasil, o cadastro vitícola da Embrapa contava cerca de 17 hectares no Rio Grande do Sul em 2012: existe, mas é raridade. Na prática, quem quer conhecer a uva começa pela Toscana.
Os outros nomes dela
O VIVC registra 115 sinônimos pra Sangiovese, e alguns deles aparecem em rótulo como se fossem uvas diferentes. Em Montalcino ela se chama Brunello, e daí vem o nome do vinho. Em Montepulciano, Prugnolo Gentile. No sul da Toscana, Morellino; a tradição local diz que o nome vem dos morelli, cavalos baios que puxavam as carruagens até Scansano. Ainda tem Sangioveto, o nome que o barão Ricasoli usava em 1872 e que a Toscana ainda usa.
A receita do barão Ricasoli
Em 1716, o grão-duque da Toscana, Cosimo III, demarcou a área do Chianti, que hoje é o Chianti Classico, pra proteger o vinho das falsificações. Mais de um século depois, o barão Bettino Ricasoli testou misturas de uvas e escreveu, em 1872, que o Chianti recebe do Sangioveto a maior parte do seu perfume. Foi a primeira receita do vinho, com a Sangiovese no centro.
Por muito tempo, essa receita levou até uva branca. O registro oficial de uvas da Itália, num texto de 1965, conta que era comum o Chianti ter um quinto de uvas brancas e que a Sangiovese sozinha dava um vinho meio rústico. A virada veio depois: o Chianti Classico passou a aceitar 100% Sangiovese em 1996, e a safra de 2006 foi a primeira sem nenhuma uva branca.
Os mais bem avaliados com Sangiovese
Nota média de quem bebeu (X-Wines), de 1 a 5. Toque pra ver a ficha.
- Soldera Case Basse Sangiovese Toscananota ★ 4,8
- Soldera Brunello di Montalcino Riservanota ★ 4,8
- Antinori Tenuta Tignanello 'Solaia'nota ★ 4,7
- Casanova di Neri Cerretalto Brunello di Montalcinonota ★ 4,7
- Poggio di Sotto Brunello di Montalcino Riservanota ★ 4,7
- Castiglion del Bosco Millecento Brunello di Montalcino Riservanota ★ 4,7
- Biondi-Santi Brunello di Montalcino Riservanota ★ 4,7
- Valdicava Brunello di Montalcino Riserva Madonna del Pianonota ★ 4,7
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