As uvas da casa · tinta
Alicante Bouschet: a uva que tinge até a polpa
Alicante Bouschet é uma uva tinta rara: a polpa dela também é vermelha, não só a casca. Por isso é chamada de tintureira, e o vinho sai quase preto. Foi criada na França no século 19, cruzando duas uvas, e hoje é a cara do Alentejo, em Portugal, onde está entre as uvas mais plantadas do país. Se um tinto alentejano já manchou a sua taça, pode agradecer a ela.
De onde vem
A Alicante Bouschet é francesa e tem certidão de nascimento. No VIVC, o catálogo internacional de uvas, o nome oficial é Alicante Henri Bouschet: um cruzamento de Petit Bouschet com Grenache (a Garnacha Tinta da Espanha), feito por Henri Bouschet no Domaine de la Calmette, na França. O catálogo registra 1855 como ano do cruzamento, e o teste de DNA confirma os dois pais. Ou seja: não é uva de lenda, é uva de projeto.
Um dos pais também foi criado de propósito. A Petit Bouschet nasceu em 1829, quando Louis Bouschet cruzou a Aramon com a Teinturier, uma tintureira antiga, segundo o VIVC; a comissão das uvas de Lodi, na Califórnia, conta que Louis era o pai de Henri. Um estudo científico de 2022 sobre uvas tintureiras diz que foi a partir desses cruzamentos dos Bouschet, no século 19, que esse tipo de uva se espalhou.
Como é no copo
Quase toda uva tinta tem polpa clara, e a cor do vinho vem só da casca. Nas tintureiras, como a Alicante, casca e polpa têm os pigmentos vermelhos, as antocianinas, explica o estudo de 2022. Resultado: o vinho sai escuríssimo. A Comissão Vitivinícola Regional Alentejana, a CVRA, conta que a cor rendeu até apelido, Tinta de Escrever, e descreve a uva com estrutura, firmeza, tanino (aquele aperto na gengiva) e muita cor.
No nariz, a CVRA fala em frutas silvestres, cacau, azeitona e notas vegetais. Raramente ela é engarrafada sozinha: o mais comum é entrar no corte pra dar cor, vigor e volume, papel que cumpre em muitos tintos do Alentejo. Quando vem sozinha, dá um tinto intenso, de sabor marcado, pra quem gosta de vinho com sustância. É a mesma qualidade que fez a fama dela na Califórnia: cor que aguenta até vinho aguado.
Com o que combina
Vinho escuro e estruturado pede prato de sustância: carne de porco assada, costela, cabrito, cordeiro, linguiça, feijoada e a carne de porco à alentejana, que no Brasil pode virar um lombo assado com batata. Também encara queijo curado, cozido caprichado e carne de panela. Se o vinho for jovem e sem madeira, segura até um churrasco de domingo. Tudo sugestão: gostou de outro par, vá de outro par.
Onde ela brilha hoje
Em Portugal, ela é estrela: com 8.822 hectares, é a quinta uva mais usada no continente, com 5,3% da área, segundo o IVV, o instituto oficial da vinha e do vinho português. A CVRA diz que o poiso natural dela no país sempre foi o Alentejo e a chama de a casta estrangeira mais portuguesa de Portugal. Mesmo sendo francesa, está tão enraizada no Alentejo que a comissão de lá a trata como da casa.
A Espanha tinha ainda mais em 2015: 26 mil hectares, segundo a OIV, a organização internacional do vinho. Na Califórnia, o levantamento oficial de 2025 contou uns 780 acres, cerca de 320 hectares. No Brasil, a Campanha Gaúcha tinha quase 19 hectares em 2015 e a autoriza na sua Indicação de Procedência; e a Embrapa já estudou a Alicante no semiárido tropical brasileiro, onde a videira dá duas safras por ano.
Os outros nomes dela
No VIVC, o nome oficial é Alicante Henri Bouschet, com 69 sinônimos. Em rótulo, o mais comum é Alicante Bouschet; a lista traz ainda Garnacha Tintorera ou só Tintorera, e versões como Alicante Nero e Alicante Noir. Vale ler com calma: a lista do catálogo também traz nomes como Garnacha e Grenache Noir, que no dia a dia querem dizer a Grenache, a outra metade da família, e não ela. Em Portugal, a CVRA ainda registra o apelido Tinta de Escrever, pela cor.
A uva que viajava de trem
Na Califórnia, a Alicante viveu o auge nos anos 1920, durante a Lei Seca dos Estados Unidos. A comissão das uvas de Lodi, na Califórnia, conta que comprar vinho saiu da lei, mas cada casa podia fazer até 200 galões por ano, uns 750 litros. Aí a uva fresca virou produto: saía de trem da Califórnia, nem sempre em vagão refrigerado, e atravessava o país até a Pennsylvania Station, em Nova York.
Duas qualidades fizeram dela a preferida, segundo a mesma comissão: a casca grossa, que resistia ao mofo e à podridão na viagem, e a polpa escura, que dava cor ao vinho caseiro mesmo quando a turma colocava água pra render. Hoje, conta Lodi, a uva segue plantada por lá porque ainda serve pra dar cor e firmeza a cortes de tinto, e o levantamento de 2025 contou algumas centenas de acres no estado.
Pra começar: Alicante Bouschet por faixa de preço
A faixa de preço que a casa viu nas lojas grandes, no mês ao lado. O preço muda; a faixa costuma ficar.
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Os mais bem avaliados com Alicante Bouschet
Nota média de quem bebeu (X-Wines), de 1 a 5. Toque pra ver a ficha.
- Mouchão Alentejano Tonel Nº 3-4nota ★ 4,7
- Pêra Grave Pêra Velha Grande Reservanota ★ 4,6
- Quinta do Zambujeiro Zambujeironota ★ 4,6
- Cartuxa Scala Coeli Reserva Tintonota ★ 4,5
- Dona Maria Júlio B. Bastos Alicante Bouschetnota ★ 4,5
- Esporão Torre Tintonota ★ 4,5
- Quinta do Mouro Tintonota ★ 4,5
- Reynolds Wine Growers Gloria Reynolds Art & Traditionnota ★ 4,4
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